quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Cap.3-Fenómeno

3. Fenómeno

Sinceramente, eu não estava sedento, mas eu decidi caçar novamente naquela noite. Uma pequena quantidade para prevenir, eu sei que seria inadequado.

Carlisle veio comigo; nós não ficávamos juntos sozinhos desde que eu retornei de Denali. Enquanto nós corríamos pela floresta negra, eu o escutei pensando sobre aquele rápido adeus da semana passada.

Em sua memória, eu vi a maneira que as minhas feições tinham se contraído em um feroz desespero. Eu senti a surpresa dele e a repentina preocupação.

“Edward?”

“Eu tenho que ir Carlisle. Tenho que ir agora.”

“O que aconteceu?”

“Nada. Ainda. Mas irá, se eu ficar.”

Ele alcançou o meu braço. Eu senti como doeu para ele quando eu recuei da sua mão.

“Eu não entendo.”

“Você já… já houve algum momento…”

Eu me vi dando uma profunda respiração, vi a selvagem luz nos meus olhos através do filtro de preocupação dele.

“Alguém já cheirou pra você melhor do que o resto das pessoas? Muito melhor?”

“Oh.”

Quando eu soube que ele tinha entendido, meu rosto caiu com vergonha. Ele me alcançou para me tocar, ignorando quando eu recuei de novo, e deixou sua mão em meu ombro.


“Faça o que você deve para resistir, filho. Sentirei tua falta. Aqui, pegue o meu carro. É mais rápido.”

Ele estava se perguntando agora se ele tinha feito a coisa certa antes, me mandando para longe. Se perguntando se ele teria me machucado com a sua falta de confiança.

“Não,” eu sussurrei enquanto eu corria. “Aquilo era o que eu precisava. Eu poderia tão facilmente ter traído aquela confiança, se você tivesse me falado pra ficar.”

“Desculpe se você está sofrendo, Edward. Mas você deve fazer o que pode para manter a criança Swan viva. Mesmo se isso signifique que você tem que nos deixar novamente.”

“Eu sei, eu sei.”

“Por que você voltou? Você sabe o quão feliz eu fico por te ter aqui, mas se isso é muito difícil…”

“Eu não gostei de me sentir um covarde,” eu admiti.

Nós desaceleramos – nós estávamos praticamente caminhando através da escuridão agora.

“Melhor do que botar ela em perigo. Ela partirá em um ano ou dois.”

“Você tem razão, eu sei disso.” Ao contrário, apesar, as palavras dele apenas me deixaram mais ansioso pra ficar. A garota partiria em um ano ou dois…

Carlisle parou de correr e eu parei com ele; ele se virou para examinar a minha expressão.

Mas você não vai fugir, vai?

Eu deixei a minha cabeça cair.

É por orgulho, Edward? Não há porque ter vergonha -

“Não, não é o orgulho que me mantêm aqui. Não agora.”

Você precisa ir neste momento?

Eu suspirei brevemente. “Não. Isso não é por mim, se fosse por mim, eu já teria ido.”

“Eu vou ficar com você, é claro, se você precisar. É só você dizer. É só você não se queixar ao resto. Eles não terão má vontade com isso.”

Ergui uma das sobrancelhas.

Ele suspirou. “Sim, Rosalie poderia, mas ela não deveria. Seja como for, é muito melhor para nós, irmos agora, sem ter feito nenhum dano, do que irmos mais tarde, depois de que uma vida tenha sido encerrada,” Todo humor havia chegado ao fim.

Eu fiquei com medo de suas palavras.

“Sim,” Eu concordei. Minha voz soou rouca.

Mas você está partindo?

Eu suspirei. “Eu deveria.”

“O que você está fazendo aqui, Edward? Não consigo ver…”

“Não sei como explicar,” Mesmo para mim, ainda não fazia sentido.

Ele mediu minha expressão por um longo tempo.

Não, eu não consigo ver. Mas eu vou respeitar sua privacidade, se você prefere.

“Muito obrigado. É generoso de sua parte, eu não dou privacidade a ninguém.” Com uma exceção. E eu estava fazendo o que eu podia para impedir isso, não estava?

Todos nós temos nossas peculiaridades. Ele riu novamente. Vamos?

Ele havia acabado de sentir o rastro de um pequeno rebanho de cervos. Era difícil reunir muito entusiasmo pelo que era, mesmo nas melhores circunstâncias, um aroma que fazia menos que dar água na boca. Agora, certamente, com a memória do sangue fresco da garota na minha mente, o aroma na verdade revirava o meu estômago.

Eu suspirei. “Vamos,” eu concordei, apesar de saber que forçar mais sangue por minha garganta não ajudaria muito.

Nós dois assumimos uma posição de caçada e deixamos o rastro que nos guiasse e nos puxamos em silêncio para frente.

Estava mais frio quando voltamos para casa. A neve derretida havia congelado novamente; era como se um fino lençol de vidro cobrisse tudo – cada ponta de pinheiro, cada folha das plantas, cada lâmina de grama estava congelada.

Enquanto Carlisle foi se vestir para seu primeiro turno no hospital, eu fiquei perto do rio, esperando o sol nascer. Eu me sentia quase inchado de tanto sangue que havia consumido, mas eu sabia que a falta de sede significaria pouco quando eu sentasse ao lado da garota de novo.

Frio e estático como a pedra em que me sentava, eu encarei a água fria que corria ao lado da margem congelada, encarando aquela cena.

Carlisle estava certo. Eu devia deixar Forks. Eles poderiam espalhar alguma história para explicar a minha ausência. Intercâmbio na Europa. Visitando parentes distantes. Fuga adolescente. A história não importava. Ninguém ia questionar muito.

Levaria apenas um ano ou dois para a garota desaparecer. Ela seguiria enfrente com a vida dela – ela teria que seguir enfrente com sua vida. Ela iria à faculdade de algum lugar, ficar mais velha, começar uma carreira, possivelmente até se casar com alguém. Eu podia imaginar isso – Eu podia ver a garota toda vestida de branco andando em uma profunda paz, de braços dados com seu pai.

Era sem igual a dor que aquela imagem me causou. Eu não podia entender aquilo. Eu estava com ciúmes, por que ela tinha um futuro que eu nunca teria? Aquilo não fazia sentido. Todos os humanos a minha volta tinham o mesmo potencial – uma vida – eu raramente tinha parado para envejá-los.

Eu devia deixá-la para seu futuro. Parar de arriscar a vida dela. Essa era a coisa mais certa a se fazer. Carlisle sempre escolhia o jeito certo. Eu devia escutá-lo agora.

O sol aumentou atrás das nuvens, e a luz fraca brilhou de todo o vidro congelado

Mais um dia, eu decidi. Eu podia vê-la uma vez mais. Podia lidar com aquilo. Possivelmente eu mencionaria o meu desaparecimento pendente, trazendo a história a tona.

Aquilo seria difícil; Eu podia sentir isso em cada pesada relutância que já estava me fazendo pensar em desculpas para dizer – para estender o prazo por dois dias, três, quatro… Mas eu não estaria fazendo a coisa certa. Eu sabia que podia confiar no aviso de Carlisle. E eu também sabia que podia ser muito difícil tomar a decisão certa sozinho.

Muito difícil. O quanto dessa relutância vinha da minha obsessiva curiosidade, e quanto vinha do meu insatisfeito apetite?

Eu entrei para trocar de roupa, para ir à escola.

Alice estava esperando por mim, sentada no topo da borda do terceiro andar.

Você está indo embora de novo, ela me acusou.

Suspirei e acenei com cabeça

Eu não consigo ver onde você está indo desta vez.

“Eu não sei para onde estou indo ainda,” eu sussurrei.

Eu quero que você fique.

Eu balancei minha cabeça.

Talvez eu e Jazz possamos ir com você?

“Eles vão precisar mais de você agora, se eu não estou aqui para olhar por eles. E pense em Esme. Eu levaria metade da família dela embora de uma vez?”

Você vai fazê-la tão triste.

“Eu sei. Por isso você tem que ficar.”

Não é o mesmo sem você aqui, você sabe disso.

“Sim. Mas eu tenho que fazer o que é certo.”

Existem vários jeitos certos, e muitos errados, pense, não está lá?

Por um curto momento ela foi até uma de suas estranhas visões; eu assisti junto com ela como as imagens indistintas apareciam e giraram. Eu vi a mim mesmo dentro dessas visões com estranhas sombras que eu não conseguia compreender – nebulosas, imprecisas formas.

E então, de repente, minha pele estava brilhando na luz do sol de uma pequena e aberta clareira. Eu conhecia este lugar. Havia uma figura na clareira comigo, mas novamente, era indistinta, não ali o suficiente para reconhecer. As imagens tremeram e desapareceram quando um milhão de pequenas escolhas rearranjaram o futuro novamente.

“Eu não absorvi muito disso,” eu disse quando a visão ficou escura.

Eu também. Seu futuro está mudando e mudando tanto que eu não consigo acompanhar. Mas eu acho que…

Ela parou, e vagueou por uma vasta coleção de outras visões recentes para mim. Eram todas iguais – borradas e vagas.

“Eu acho que algo está mudando, na verdade,” ela disse em voz alta. “Sua vida parece que alcançou uma encruzilhada.”

Eu ri, austero. “Você tem noção de que soa como uma cigana charlatona em um parque de diversões agora, certo?”

Ela mostrou sua pequena língua.

“Hoje está tudo bem, não é?” perguntei, minha voz abruptamente apreensiva.

“Não vejo você matando ninguém hoje,” ela me garantiu.

“Obrigado, Alice.”

“Vá se trocar. Não direi nada – deixarei que você conte aos outros quando estiver pronto.”

Ela levantou-se e seguiu escada abaixo, seus ombros um pouco curvados. Sentirei sua falta. Muito.

Sim, eu também sentiria a falta dela.

Foi uma viagem quieta até o colégio. Jasper podia dizer que Alice estava brava com alguma coisa, mas ele sabia que se ela quisesse falar sobre isso já o teria feito. Emmett e Rosalie estavam distraídos, tendo outro de seus momentos, olhando um nos olhos do outro com admiração- era um tanto nojento de se assistir pelo lado de fora. Nós todos sabíamos o quão desesperadamente apaixonados eles estavam. Ou talvez eu apenas estivesse sendo amargo por ser o único sozinho. Alguns dias eram piores que outros de se conviver com três casais perfeitos e apaixonados. Esse era um desses dias.

Talvez eles fossem mais felizes sem mim por perto, com meu temperamento ruim e hostil como o senhor de idade que eu deveria ser agora.

Claro, a primeira coisa que fiz quando chegamos ao colégio foi procurar a garota. Apenas me preparando novamente.

Certo.

Era embaraçoso como meu mundo de repente parecia ser vazio de tudo, menos ela – toda a minha existência centrada ao redor dessa garota, ao invés de em mim mesmo.

Era fácil de entender, na verdade; depois de oitenta anos da mesma coisa, todo dia, toda noite, qualquer mudança era motivo de interesse.

Ela ainda não chegara, mas eu podia ouvir o barulho de trovão do motor de sua picape ao longe. Inclinei-me ao lado do carro para esperar. Alice esperou comigo, enquanto os outros foram direto para suas aulas. Estavam entediados com minha fixação – era incompreensível para eles como qualquer humano pudesse despertar tanto interesse em mim por tanto tempo, não importava o quão delicioso o cheiro dela era.

A garota aos poucos entrou em meu campo de visão, seus olhos na estrada e suas mãos segurando com força o volante. Ela parecia ansiosa com algo. Levei um segundo para entender o que o algo seria, para perceber que todo humano tinha a mesma expressão hoje. Ah, a estrada estava escorregadia por causa do gelo, e eles estavam todos dirigindo com cuidado. Eu podia ver que ela levava o risco a sério.

Aquilo parecia alinhado com o pouco que eu já aprendera sobre sua personalidade. Adicionei aquilo à pequena lista: ela era uma pessoa séria, responsável.

Ela estacionou não muito longe de mim, mas ainda não notara minha presença ainda, encarando-a. Pensei no que ela faria quando percebesse? Coraria e iria embora?

Aquele era meu primeiro palpite. Mas talvez ela me encarasse de volta. Talvez ela viesse falar comigo.

Inspirei fundo, enchendo meus pulmões. Esperançoso, apenas por precaução.

Ela saiu da picape com cuidado, testando o chão escorregadio antes que ela pusesse todo seu peso nele. Não olhou para cima, e isso me frustrou. Talvez eu devesse falar com ela…

Não, isso seria errado.

Ao invés de virar em direção ao colégio, ela caminhou até a traseira da picape, segurando-se no lado da picape de um jeito atrapalhado, não confiando em seus passos. Isso me fez sorrir, e eu senti os olhos de Alice em meu rosto. Não ouvi seja lá o que isso a fez pensar – eu estava me divertindo muito observando a garota checar as correntes nos pneus. Ela realmente parecia que estava prestes a escorregar, da maneira que seus pés deslizavam no chão. Ninguém mais parecia ter o mesmo problema – teria ela estacionado na pior parte do gelo?

Ela parou por um momento, olhando para os pneus com uma expressão estranha no rosto. Era… ternura? Como se algo com relação aos pneus a deixasse… emocionada?

Novamente, a curiosidade doeu como a sede. Era como se eu precisasse saber o que ela estava pensando – como se mais nada importasse.

Eu iria falar com ela. Ela parecia que precisava de uma ajuda de qualquer modo, pelo menos até que ela estivesse fora da zona escorregadia de gelo. Claro, eu não poderia lhe oferecer ajuda, não é? Hesitei, dividido. Por mais contrária que ela parecia com relação à neve, dificilmente ela acharia agradável o toque de minhas mãos brancas e frias. Eu devia ter usado luvas -

“NÃO!” Alice ofegou alto.

Instantaneamente, li seus pensamentos, imaginando primeiro que eu deveria ter feito uma escolha ruim e ela me viu fazendo algo imperdoável. Mas não era nada a ver comigo.

Tyler Crowley escolhera fazer a curva do estacionamento rápido demais. Essa escolha o faria deslizar no gelo…

A visão aconteceu a menos de meio segundo da realidade. A van de Tyler rodou na esquina enquanto eu assistia o final que deixou Alice sem fôlego.

Não, essa visão não tinha nada a ver comigo, mas ainda assim tinha tudo a ver comigo, porque a van de Tyler – os pneus agora tocando o gelo num ângulo pior, impossível – ia rodar pelo estacionamento e bater na garota que se tornara o foco não intencional de meu mundo.

Mesmo sem Alice prevendo, teria sido fácil adivinhar a trajetória do veículo, saindo do controle de Tyler.

A garota, parada no lugar exatamente errado na traseira da picape, olhou para cima, confusa com o barulho dos pneus cantando no asfalto. Ela olhou diretamente nos meus olhos horrorizados, e virou-se para observar sua morte iminente.

Ela, não! As palavras gritaram em minha mente, como se pertencessem a outra pessoa.

Ainda preso aos pensamentos de Alice, percebi que a visão de repente se modificava, mas não tive tempo de ver o que aconteceria então.

Atirei-me pelo estacionamento, jogando-me entre a van desgovernada e a garota petrificada. Movimentei-me tão depressa que tudo parecia apenas um borrão, menos o objeto em que eu estava focado. Ela não me viu – nenhum olho humano conseguiria acompanhar minha movimentação – ainda encarando a forma que estava prestes a prensá-la na estrutura metálica de sua picape.

A peguei pela cintura, movendo com urgência para ser tão gentil quanto fosse possível. No centésimo de segundo entre o tempo que levei para tirá-la do caminho da morte e o tempo que levei para cair no chão com ela em meus braços, eu estava vividamente consciente da fragilidade de seu corpo.

Quando ouvi sua cabeça bater contra o gelo, senti como se eu tivesse virado gelo também.

Mas eu não tinha nem mesmo um segundo inteiro para me certificar de sua condição. Escutei a van atrás de nós, girando barulhenta enquanto batia no corpo metálico da picape da garota. Estava mudando de curso, virando-se, vindo até ela novamente – como se ela fosse um ímã, puxando-a para nós.

“Droga,” sibilei.

Eu já havia feito muito. Enquanto eu voava pelo ar para tirá-la do caminho, eu estava consciente do erro que estava cometendo. Saber que era um erro não me impediu, mas eu não estava alheio ao risco que estava assumindo – assumindo, não apenas para mim, mas para toda minha família.

Revelação.

E isso certamente não ajudaria, mas não havia a menor chance de eu deixar a van obter sucesso em sua segunda tentativa de tirar a vida da garota.

A deixei no chão e ergui minhas mãos, segurando a van antes que ela pudesse tocar a garota. A força do movimento me lançou de encontro ao carro parado ao lado da picape, e eu podia sentir sua forma afundar por meus ombros. A van tremeu contra o obstáculo que eram meus braços, e então girou, balançando instável nos dois pneus mais afastados.

Se eu movesse minhas mãos, o pneu traseiro da van ia cair nas pernas dela.

Ah, pelo amor de tudo que é sagrado, as catástrofes nunca teriam fim? Havia mais alguma coisa pra dar errado? Eu não podia ficar ali, segurando a van no ar, e esperando por resgate. Mas não podia jogar a van longe – havia o motorista a considerar, seus pensamentos incoerentes pelo pânico.

Com um rugido interno, empurrei a van para que ela se afastasse de nós por um instante. Enquanto ela balançava novamente em minha direção, a segurei por debaixo de sua forma com minha mão direita enquanto enrolava meu braço esquerdo em volta da cintura da garota novamente e a arrastava de debaixo da van, puxando-a apertada a meu lado. Seu corpo se moveu mole enquanto eu a virava para que suas pernas estivessem livres – estaria ela consciente? Quanto dano eu a teria infligido em minha desastrosa tentativa de resgate?

Deixei a van cair, agora que não podia mais machucá-la. Ela bateu no pavimento, as janelas tremendo em uníssono.

Eu sabia que estava no meio de uma crise. O quanto ela teria visto? Mais alguém teria me visto materializar ao lado dela e então segurado a van enquanto tentava tirar a garota de debaixo dela? Essas questões deveriam ser minha maior preocupação.

Mas eu estava ansioso demais para realmente me importar com a ameaça de exposição o tanto que eu deveria. Muito tomado pelo pânico de que eu poderia tê-la machucado em meu esforço de protegê-la. Muito assustado de tê-la tão próxima a mim, sabendo que assim eu sentiria seu cheiro se eu me permitisse respirar. Muito consciente do calor de seu corpo macio, pressionado ao meu – mesmo pelo obstáculo duplo de nossas jaquetas, eu podia sentir o calor…

O primeiro medo foi o maior. Quando os gritos das testemunhas se ergueu a nossa volta, me inclinei para examinar seu rosto, para ver se ela estava consciente – esperando ansiosamente para que ela não estivesse sangrando.

Seus olhos estavam abertos, encarando em choque.

“Bella?” Perguntei urgentemente. “Você esta bem?”

“Estou bem.” Ela disse, suas palavras soaram automáticas com tom atordoado.

Alívio. Era tão esquisito quanto doloroso, o banho que veio a mim com o som da sua voz. Eu inspirei um pouco entre meus dentes, e não me importei com a queimação que estava na minha garganta. Eu quase dei as boas-vindas.

Ela se esforçou para sentar-se, mas eu não estava pronto para soltá-la. Se eu soltasse… seria mais seguro? Melhor, no mínimo, tê-la enroscada em mim.

“Cuidado,” Eu a avisei. “Acho que você bateu sua cabeça com força.”

Não estava cheirando a sangue novo – uma piedade – mas isso não quer dizer nada sobre o dano interno. Eu estava inesperadamente ansioso para levá-la ao Carlisle e ao seu completo equipamento de radiologia.

“Ai,” ela disse, seu tom comicamente chocado quando ela percebeu que eu estava certo sobre sua cabeça.

“Foi isso que pensei”. Aliviadamente foi engraçado para mim, me fez ficar mais tonto.

“Como foi que…” Sua voz falhou, e seus olhos tremeram. “Como foi que chegou aqui tão rápido?”

O alivio voltou azedo, o humor desapareceu. Ela percebeu demais.

Agora pareceu que a garota estava em postura séria, a ansiedade pela minha família estava séria.

“Eu estava bem ao seu lado, Bella.” Eu sabia por experiência que se eu tivesse muita auto-confiança poderia mentir, de uma maneira que qualquer questionamento poderia parecer verdade.

Ela esforçou-se para se mover de novo, e nessa hora eu me permiti. Eu precisava respirar tanto que eu poderia fazer meu papel corretamente, eu precisava de espaço do seu corpo caloroso, delicioso e quente tanto que não poderia combinar com sua mensagem de desespero para mim. Eu deslizei para longe dela, o mais longe o possível no pequeno espaço entre os destroços do veículo.

Ela me olhou e eu a olhei também. Para olhar para longe, seria um primeiro erro que apenas um mentiroso incompetente poderia fazer, e eu não era um mentiroso incompetente. Minha expressão estava suave, benigna… Seu rosto pareceu confuso. Isso era bom.

A cena do acidente estava cercada agora. Tantos estudandes, crianças, colegas se empurrando feito manivelas para ver qualquer corpo que fosse visivel. Ali as falas eram inteligíveis com os altos gritos dos pensamentos chocados. Eu escaniei os pensamentos uma vez para ter certeza que não havia ninguém desconfiado ainda, e então pude desligar e me concentrar apenas na garota.

Ela estava distraída por causa da confusão. Ela deu uma olhada por perto, sua expressão continuou chocada e cansada para se manter em pé.

Eu coloquei minha mão levemente para empura-la.

“Fique quieta por enquanto.” Ela parecia bem, mas ela poderia mesmo mover seu pescoço? De novo, eu ansiei por Carlisle. Meus olhos como estudante teórico de medicina não se igualavam com seus séculos de medicina prática.

“Mas está frio,” Ela reclamou.

Ela quase tinha sido esmagada até a morte duas vezes de formas distintas e se ferido uma vez mais, e era esse frio que a estava incomodando. Um pedaço da memória deslizou em meus dentes, depois eu pude lembrar que a situação não foi engraçada.

Bella piscou, e seus olhos focaram no meu rosto. “Você estava lá.”

Aquilo soou sério para mim de novo.

Ela deu uma olhada para trás, viu que não tinha nada para ver além da Van amassada. “Você estava perto do seu carro.”

- Não estava não.

- Vi você. – ela insistiu; a voz dela era infantil quando era teimosa. Seu queixo sobressaiu.

- Bella, eu estava parado do seu lado e tirei você do caminho.

Eu encarei fundo em seus olhos intensos, tentando convencê-la a aceitar minha versão – a única racional disponível.

O queixo dela se endureceu. – Não.

Eu tentei ficar calmo, não entrar em pânico. Se eu pudesse a manter calada por alguns momentos, me dar uma chance de destruir a evidência… e negar a história dela alegando uma lesão na cabeça.

Não deveria ser fácil manter essa garota silenciosa e reservada calada? Se ela confiasse em mim, só por alguns instantes…

-Por favor, Bella. – eu disse, e minha voz estava muito intensa, porque de repente eu queria que ela confiasse em mim. Queria muito, e não só por causa do acidente. Que vontade estúpida. Que sentido faria ela confiar em mim?

- Por quê? – ela perguntou, ainda na defensiva.

- Confie em mim. – eu pedi.

- Promete que vai me explicar tudo depois?

Deixou-me nervoso ter que mentir para ela de novo, quando eu queria tanto que eu merecesse a confiança dela. Então, quando eu a respondi, retruquei.

- Tudo bem.

- Tudo bem. – ela revidou no mesmo tom.

Enquanto a tentativa de resgate começava ao nosso redor – adultos chegando, autoridades foram chamadas, sirenes à distância – eu tentei ignorar a garota e colocar minhas prioridades em ordem. Busquei em cada mente no estacionamento, das testemunhas e das que chegaram depois, mas não consegui achar nada de perigoso. Muitos estavam surpresos de me ver ao lado de Bella, mas todos concluíram – porque não havia mais nenhuma conclusão a se tirar – que eles não tinham me notado parado ao lado da menina antes do acidente.

Ela era a única que não aceitava a explicação mais fácil, mas também seria considerada a fonte menos confiável. Ela estava aterrorizada, traumatizada, para não falar a pancada na cabeça. Possivelmente em choque. Seria aceitável para a história dela estar confusa, certo? Ninguém a daria atenção com tantos outros expectadores.

Eu recuei quando ouvi os pensamentos de Rosalie, Jasper e Emmett, que chegavam agora na cena. Seria o inferno pagar por isto à noite…

Eu queria resolver o problema da fissura que meus ombros tinham deixado no carro caramelo, mas a garota estava perto demais. Teria que esperar até que ela estivesse distraída.

Era frustrante esperar – tantos olhos humanos em mim – enquanto os humanos lutavam com a van, tentando tirá-la de nós. Eu podia ter ajudado, apressado o processo, mas já estava com problemas suficientes e a menina tinha olhos atentos. Finalmente, eles conseguiram afastá-la longe o suficiente para que os paramédicos entrassem com as macas.

Um rosto grisalho e familiar apareceu.

- Oi, Edward. – Brett Warner disse. Ele também era um enfermeiro registrado, e eu o conhecia bastante bem do hospital. Foi um golpe de sorte – a única sorte de hoje – foi ele quem chegou até nós primeiro. Em seus pensamentos, ele estava notando que eu parecia alerta e calmo. – Você está bem, garoto?

- Perfeito, Brett. Nada me acertou. Mas receio que a Bella aqui talvez tenha uma concussão. Ela bateu a cabeça forte quando a tirei da frente…

Brett se virou para a menina, que me lançou um olhar traído. Ah, estava certo. Ela era o tipo de mártir calado – preferia sofrer em silêncio.

Ela não contradisse minha história imediatamente e isso me deixou melhor.

O próximo paramédico insistiu que eu me deixasse ser tratado, mas não foi tão difícil desencorajá-lo. Eu prometi que deixaria meu pai me examinar, e ele desistiu. Com a maioria dos humanos, só falar com confiança era necessário. Com a maioria dos humanos, menos a menina, é claro. Ela se encaixava em algum padrão?

Quando eles colocaram o protetor de pescoço nela – e seu rosto ficou escarlate de vergonha – usei a distração para arrumar silenciosamente o formato do amassado no carro caramelo com meu pé. Só meus irmãos notaram o que eu estava fazendo e escutei a promessa mental de Emmett de arrumar o que eu deixasse para trás.

Agradecido pela ajuda dele – e mais agradecido que Emmett, pelo menos, já tinha perdoado minha escolha perigosa – fiquei mais relaxado quando subi no banco da frente da ambulância ao lado de Brett.

O chefe de polícia chegou antes que eles colocassem Bella no fundo da ambulância.

Embora os pensamentos do pai de Bella estivessem além das palavras, o pânico e a preocupação emanando da mente do homem como qualquer outro nos arredores. Ansiedade e culpa sem palavras, muito dos dois sentimentos, o lavou quando ele viu sua única filha na maca.

Lavaram dele e passaram para mim, ecoando e ficando mais forte. Quando Alice tinha me avisado que matar a filha de Charlie Sawn o mataria também, ela não estava exagerando.

Minha cabeça se curvou de culpa enquanto escutava sua voz em pânico.

- Bella! – ele gritou.

- Eu estou bem Char… pai. – ela suspirou. – Não há nada de errado comigo.

A garantia dela mal acalmou o terror dele. Ele se virou para o paramédico mais perto e pediu mais informação.

Não foi até eu o ouvir falando, formando frases perfeitamente coerentes tirando seu pânico que eu percebi que a ansiedade e preocupação dele não eram além das palavras. Eu só… não podia ouvir as palavras exatas.

Hmm. Charlie Swan não era tão silencioso como a filha, mas eu podia ver de onde ela tinha herdado. Interessante.

Nunca tinha passado muito tempo envolta do chefe de polícia da cidade. Sempre o considerei um homem de raciocínio lento – agora eu entendi que eu é que era lento. Os pensamentos dele eram parcialmente ocultos, não ausentes. Eu só podia escutar o caráter deles, o tom…

Queria escutar com mais atenção, ver se eu podia achar nessa nova pequena peça a chave para os segredos da garota. Mas Bella foi trancada na parte trazeira então, e a ambulância estava seguindo seu caminho.

Era difícil me desviar dessa possível solução para o mistério que tinha me deixado obcecado. Mas eu tinha que pensar agora – olhar o que havia sido feito hoje de cada ângulo. Eu tinha que escutar, ter certeza de que não tinha colocado todos nós em tanto perigo que teríamos que partir imediatamente. Tinha que me concentrar.

Não havia nada nos pensamentos dos paramédicos para me preocupar. Até onde eles sabiam, não tinha nada de errado com a garota. E Bella estava mantendo a história que eu tinha contado, até agora.

A prioridade, quando chegamos ao hospital, era ver Carlisle. Eu corri pelas portas automáticas, mas fui incapaz de abrir mão de assistir totalmente a Bella; continuei prestando atenção nela através dos pensamentos dos paramédicos.

Foi fácil achar a mente familiar de meu pai. Ele estava um seu escritório pequeno, sozinho – o segundo golpe de sorte desse dia azarado.

- Carlisle.

Ele escutou minha aproximação, e ficou alarmado assim que viu meu rosto. Ele ficou em pé, pálido como um fantasma. Ele se inclinou para frente da mesa de nogueira organizada.

Edward, você não…

- Não, não, não é isso.

Ele respirou fundo. Claro que não. Desculpe que pensei isso. Seus olhos, claro, eu devia reconhecido… Ele notou meus olhos ainda eram dourados com alívio.

- Mas ela está machucada, Carlisle, provavelmente não é grave, mas…

- O que aconteceu?

- Um acidente de carro estúpido. Ela estava no lugar errado, na hora errada. Mas eu não podia fica parado lá – deixar que fosse atropelada…

Comece de novo, eu não entendo. Como você se envolveu?

- Uma van derrapou no gelo. – eu sussurrei. Olhei a parede atrás dele enquanto falava. Ao invés de ser coberta com diplomas, ele tinha só uma pintura à óleo, uma de suas favoritas, um Hassam não descoberto. – Ela estava no caminho. Alice viu acontecendo, mas não havia tempo para fazer nada além de correr pelo estacionamento e tirá-la da frente. Ninguém notou… exceto ela. Eu tive que parar a van também, mas de novo, ninguém viu… a não ser ela. Eu… eu sinto muito, Carlsile. Não queria nos colocar em perigo.

Ele deu a volta na mesa e colocou a mão no meu ombro.

Você fez a coisa certa. E não deve ter sido fácil para você. Estou orgulhoso, Edward.

Eu o olhei nos olhos. – Ela sabe que tem algo… de errado comigo.

- Isso não importa. Se tivermos que ir embora, nós iremos. O que ela disse?

Balancei a cabeça, um pouco frustrado. – Nada, ainda.

Ainda?

- Ela concordou com a minha versão dos eventos… mas está esperando uma explicação.

Ele franziu a testa, pensando.

- Ela bateu a cabeça – bom, eu fiz isso. – continuei rapidamente. – Eu a bati contra o chão com bastante força. Ela parece bem, mas… não acho que será difícil desacreditá-la.

Senti-me rude só de dizer as palavras.

Carlisle ouviu o desgosto na minha voz. Talvez isso não seja necessário. Vamos ver o que acontece, está bem? Parece que tenho uma paciente para ver.

- Por favor. – eu disse. – Estou preocupado que a tenha machucado.

A expressão de Carslile se aliviou. Ele passou o dedo pelo cabelo, só alguns tons mais claro que seus olhos dourados, e riu.

Foi um dia interessante para você, não foi? Em sua mente, eu podia ver a ironia, e era engraçada – para ele, pelo menos. Uma inversão de papéis. Durante aquele momento curto e impensado em que corri pelo estacionamento congelado, eu tinha passado de assassino para protetor.

Eu ri com ele, lembrando de ter certeza de que Bella nunca precisaria de proteção de nada além de mim mesmo. Minha risada tinha um tom irritado porque, apesar da van, isso ainda era verdade.

Eu esperei no escritório de Carlsile – uma das horas mais compridas que já vivi – escutando o hospital cheio de pensamentos.

Tyler Crowley, o motorista da van, parecia estar mais machucado que Bella, e a atenção se voltou para ele enquanto ela esperava a sua vez de fazer o raio-X. Carlisle ficou nos fundos, confiando no diagnóstico dos residentes de que a garota só estava levemente machucada. Isso me deixou ansioso, mas sabia que ele tinha razão. Uma espiada no rosto dele e ela imediatamente se lembraria de mim, do fato que havia algo de errado com a minha família, e talvez isso a fizesse falar algo.

Ela certamente tinha um parceiro disposto o suficiente para conversar. Tyler estava consumido por culpa com o fato de quase tê-la matado, e não conseguia parar de falar sobre isso. Eu podia ver a expressão dela através dos olhos dele, e estava claro que ela queria que ele parasse. Como ele não via isso?

Houve um momento tenso para mim quando Tyler perguntou como ela tinha saído da frente.

Eu esperei, sem respirar, como ela hesitou.

- Hmmm… – ele a escutou falar. Então ela fez uma pausa tão longa que Tyler se perguntou se sua pergunta a tinha confundido. Finalmente, ela continuou. - Edward me puxou de lá.

Eu suspirei. Então minha respiração acelerou. Eu nunca a tinha ouvido falar meu nome antes. Gostei do som – mesmo só de escutar pelos pensamentos de Tyler. Queria escutar com meus próprios ouvidos…

- Edward Cullen. – ela disse, quando Tyler não entendeu de quem ela tinha falado. Encontrei-me na porta, a mão na maçaneta. O desejo de vê-la estava ficando mais forte. Eu tive que me lembrar de ter cuidado.

- Ele estava do meu lado.

- Cullen? – Hm. Que estranho. – Não o vi… - Podia ter jurado… – Caramba, acho que foi tudo tão rápido. Ele está bem?

- Acho que sim. Está em algum lugar por aqui, mas ninguém o obrigou a usar uma maca.

Eu vi o olhar pensativo no rosto dela, a suspeita ficando mais forte em seus olhos, mas essas pequenas mudanças de expressão foram perdidas em Tyler.

Ela é bonita, ele estava pensando, quase surpreso. Mesmo toda desarrumada. Não faz meu tipo, mas… devia convidá-la para sair. Compensar por hoje…

Então fui para o corredor, a meio caminho da sala de emergência, sem pensar por um segundo no que estava fazendo.

Por sorte, a enfermeira entrou na sala antes de mim – era a vez de Bella tirar o raio-X. Encostei-me à parede em um canto escuro e tentei me controlar enquanto ela era levada para longe.

Não importava que Tyler pensou que ela era bonita. Qualquer um notaria isso. Não havia razão para eu me sentir… Como eu me sentia? Aborrecido? Ou enfurecido estava mais perto a verdade? Isso não fazia nenhum sentido.

Eu fiquei onde eu estava o quanto eu pude, mas a impaciência me venceu e eu voltei pra sala de radiologia. Ela já tinha sido levada de volta ao pronto socorro, mas eu podia dar uma olhada em seus Raios-x enquanto a enfermeira não voltava.

Eu me senti mais calmo quando vi. Sua cabeça estava bem. Eu não a tinha machucado, não exatamente.

Carlisle me apanhou lá.

Você parece melhor, ele comentou.

Eu apenas olhei pra frente. Nós não estávamos sozinhos, os corredores cheios de ordenados e visitantes.

Ah, sim. Ele encravou seus raios-x a tábua iluminada, mas eu não precisava de uma segunda olhada. Eu vejo. Ela está absolutamente bem. Muito bem, Edward.

O som da aprovação de meu pai criou uma reação mista em mim. Eu estaria contente, exceto por saber que ele não aprovaria o que eu ia fazer agora. Ao menos, ele não aprovaria se soubesse de minhas reais motivações…

“Eu acho que vou conversar com ela – depois que ela ver você,” eu suspirei. “Aja naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Esqueça isso.” Todas razões aceitáveis.

Carlisle acenou ausente, ainda olhando pros seus raios-x. “Boa idéia. Hmm.”

Eu olhei pra ver o que o tinha interessado.

Olhe todas as contusões cicatrizadas! Quantas vezes a mãe dela a derrubou?

Carlisle sorriu pra si mesmo por sua brincadeira.

“Eu estou começando a pensar que essa garota tem apenas má sorte. Sempre no lugar errado na hora errada.”

Forks é certamente o lugar errado pra ela, com você aqui.

Eu me retirei.

Vá em frente. Esqueça essas coisas. Eu estarei com você logo.

Eu saí rapidamente, me sentindo culpado. Talvez eu fosse um mentiroso muito bom, se eu pudesse enganar Carlisle.

Quando eu cheguei ao pronto socorro, Tyler estava resmungando sob sua respiração, ainda se desculpando. A garota estava tentando escapar do remorso dele tentando dormir. Os olhos dela estavam fechados, mas sua respiração não estava contínua, e uma vez ou outra seus dedos se torciam impacientemente.

Eu encarei seu rosto por um longo tempo. Essa era a última vez que eu a veria. Isso disparou uma dor aguda em meu peito. Seria porque eu odiava deixar qualquer quebra-cabeça sem solução? Isso não parecia uma explicação suficiente.

Finalmente, eu respirei fundo e fiquei a vista.

Quando Tyler me viu, ele começou a falar, mas eu coloquei um dedo em meus lábios.

“Ela está dormindo?” Eu murmurei.

Os olhos de Bella se abriram rapidamente e focou em meu rosto. Eles se arregalaram por um momento, e depois se estreitaram por raiva ou suspeita. Eu lembrei que eu tinha uma encenação pela frente, então eu sorri pra ela como se nada incomum houvesse acontecido esta manhã – apenas uma pancada na cabeça e um pouco de imaginação livre.

“Hey, Edward,” Tyler disse. “Eu lamento muito -”

Eu levantei uma mão pra parar suas desculpas. “Sem sangue, sem danos,” eu disse humoradamente. Sem pensar, eu sorri muito largamente por minha brincadeira particular.

Era assustadoramente fácil ignorar Tyler, deitado não mais que 1.20m de mim, coberto de sangue fresco. Eu nunca tinha entendido como Carlisle era capaz de fazer aquilo – ignorar o sangue de seus pacientes pra cuidar deles. Não seria a constante tentação muito distraída, muito perigosa…? Mas, agora… Eu podia ver como, se você estivesse focado o suficiente em algo mais forte o suficiente, a tentação não seria nada demais.

Apesar de fresco e exposto, o sangue de Tyler não tinha nada a ver com o de Bella.

Eu mantive minha distância dela, me sentando nos pés do colchão de Tyler.

“Então, qual o veredicto?” eu perguntei a ela.

Ela fez bico. “Não há nada de errado comigo, mas eles não vão me deixar ir. Como você não está acorrentado a uma maca como o resto de nós?”

Sua impaciência me fez sorrir novamente.

Eu podia ouvir Carlisle no corredor agora.

“Tudo depende dos seus contatos,” eu disse suavemente. “Mas não se preocupe, eu vim libertar você.”

Eu assisti sua reação cuidadosamente enquanto meu pai entrava na sala. Os olhos dela se arregalaram e sua boca realmente abriu em surpresa. Eu gemi internamente. Sim, ela certamente tinha notado a semelhança.

“Então, Srta. Swan, como você está se sentindo?” Carlisle perguntou. Ele tinha uma maneira maravilhosamente calma que deixava a maioria dos pacientes bem em poucos momentos. Eu não poderia falar como isso afetou Bella.

“Eu estou bem,” ela disse quietamente.

Carlisle fixou seus raios-x no painel de luz acima da cama. “Seu raio-X parece bom. Sua cabeça está doendo? Edward disse que você bateu com força.”

Ela suspirou, e disse, “Eu estou bem,” novamente, mas dessa vez a impaciência vazou em sua voz. Depois ela olhou de relance em minha direção.

Carlisle se aproximou dela e correu seus dedos levemente por seu crânio até que ele encontrou o galo embaixo de sua cabeça.

Eu fui pego de surpresa pela onda de emoção que passou por mim.

Eu tinha visto Carlisle trabalhar com humanos mil vezes. Anos atrás, eu tinha até o ajudado informalmente – embora apenas em situações em que sangue não estava envolvido. Então não era uma coisa nova pra mim, assisti-lo interagir com a garota como se ele fosse tão humano quanto ela. Eu tinha invejado seu controle muitas vezes, mas não era o mesmo que essa emoção. Eu invejei mais que seu controle. Eu sofri pela diferença entre Carlisle e eu – que ele pudesse tocá-la tão gentilmente, sem receio, sabendo que nunca a machucaria…

Ela estremeceu, e eu pulei do meu assento. Eu tive que me concentrar por um momento para manter minha postura relaxada.

“Sensível ?” Carlisle perguntou.

Seu queixo se levantou um pouco. “Na verdade não,” ela disse.

Outro pequeno pedaço de sua personagem se encaixou: ela estava brava. Ela não gostava de mostrar fraqueza.

Possivelmente a criatura mais vulnerável que eu já vi, e ela não quer parecer fraca. Uma gargalhada escorregou através de meus lábios.

Ela me olhou novamente.

“Bem,” Carlisle disse. “Seu pai está na sala de espera – você pode ir pra casa com ele agora. Mas volte se tiver vertigens ou qualquer problema com a sua visão.”

O pai dela estava aqui? Eu varri os pensamentos da sala de espera lotada, mas não conseguia distinguir sua voz mental do grupo antes que ela estivesse falando de novo, o rosto ansioso.

- Posso voltar pra a escola?

- Talvez devesse descansar hoje. – Carlisle sugeriu.

Os olhos dela se voltaram para mim. – Ele vai para a escola?

Agir normalmente… acalmar as coisas… esquecer a sensação quando ela me olha nos olhos…

-Alguém tem que espalhar a boa notícia de que sobrevivemos. – eu disse.

- Na verdade – Carlisle corrigiu – a maior parte da escola parece estar na sala de espera.

Eu pressenti a reação dela dessa vez – sua aversão à atenção. Ela não me desapontou.

- Ah, não – ela lamentou e colocou as mãos no rosto.

Eu gostei que finalmente adivinhei uma coisa certa. Estava começando a entendê-la…

- Quer ficar aqui? – Carlisle perguntou.

- Não, não! – ela disse rapidamente, girando as pernas sob o colchão e escorregando para ficar em pé. Ela tropeçou, sem equilíbrio, nos braços de Carlisle. Ele a pegou e a firmou.

Novamente, a inveja me inundou.

- Estou bem. – ela disse antes que ele pudesse comentar, um rosa claro em suas bochechas.

Claro, aquilo não incomodaria Carlisle. Ele teve certeza que ela tinha recuperado o equilíbrio e soltou as mãos.

- Tome um Tylenol para a dor. – ele instruiu.

- Não está doendo tanto assim.

Carlisle sorriu e assinou o prontuário dela. – Parece que vocês dois tiveram muita sorte.

Ela virou levemente o rosto, para me encarar com olhos rígidos. – A sorte foi Edward por acaso estar parado ao meu lado.

- Ah, bem, sim. – Carlisle concordou depressa, escutando a mesma coisa na voz dela que eu escutei. Ela não tinha pensado que suas suspeitas eram coisas da sua imaginação. Ainda não.

Toda sua, Carlisle pensou. Cuide do jeito que achar melhor.

- Muito obrigado. – eu sussurrei, rápido e baixo. Nenhum humano me ouviu. Os lábios de Carlisle se viraram um pouco para cima com o meu sarcasmo enquanto ele se virava para Tyler. – Mas acho que você terá que ficar conosco por mais um tempinho. – ele disse quando começou a examinar os cortes deixados pelo vidro quebrado.

Bom, eu tinha feito o estrago, então era justo que eu tivesse que lidar com ele.

Bella andou deliberadamente na minha direção, sem parar até que estivesse a uma distância desconfortável. Lembrei como eu tinha desejado, antes de todo o estrago, que ela se aproximasse de mim… Isso já era zombar desse desejo.

- Posso conversar com você um minuto? – ela sibilou para mim.

A sua respiração quente tocou meu rosto e eu tive que dar um passo para trás. A atração dela não tinha diminuído nem um pouquinho. Toda vez que ela estava perto de mim, despertava os meus piores instintos, os mais urgentes. Veneno inundou minha boca e meu corpo ansiou para atacar – para puxá-la para os meus braços e despedaçar sua garganta nos meus dentes.

Minha mente era mais forte que meu corpo, mas era por pouco.

- Seu pai está esperando por você. – eu a lembrei, com o queixo apertado.

Ela olhou para Carlisle e Tyler. Tyler não estava prestando nem um pouco de atenção, mas Carlisle estava monitorando cada respiração que eu dava.

Cuidado, Edward.

- Gostaria de falar com você a sós, se não se importa. – ela insistiu em uma voz baixa.

Eu gostaria de dizer que me importava muito, mas sabia que teria que passar por isso uma hora. Melhor acabar com isso de uma vez.

Estava cheio de tantas emoções em conflito quando eu saía do quarto, escutando-a tropeçar nos próprios pés atrás de mim, tentando me acompanhar.

Tinha que atuar. Sabia que papel eu faria – eu já tinha escolhido o personagem. Seria o vilão. Mentiria, ridicularizaria e seria cruel.

Isso era contra todos os meus melhores impulsos – os impulsos humanos aos quais tinha me agarrado todos esses anos. Nunca quis merecer mais confiança do que nesse momento, quando tinha que destruir qualquer possibilidade que ela existisse.

Foi pior saber que essa seria a última memória que ela teria de mim. Essa era a cena de despedida.

Virei-me para ela.

- O que você quer? – perguntei friamente.

Ela se contraiu um pouco com a minha hostilidade. Seus olhos ficaram confusos, na expressão que tinha me assombrado…

- Você me deve uma explicação. – ela disse em uma voz fraca; o rosto de marfim empalideceu.

Foi muito difícil manter minha voz dura. – Eu salvei a sua vida… Não lhe devo nada.

Ela recuou – queimou como ácido ver que minhas palavras a machucavam.

- Você prometeu. – ela sussurrou.

- Bella, você bateu a cabeça, não sabe do que está falando.

Então ela se empertigou. – Não há nada de errado com a minha cabeça.

Ela estava irritada agora, e isso deixou as coisas mais fáceis para mim. Eu sustentei seu olhar, deixando meu rosto menos amigável.

- O que você quer de mim, Bella?

- Quero saber a verdade. Quero saber por que estou mentindo por você.

O que ela queria era justo – me frustrou ter que negar isto para ela.

- O que você acha que aconteceu? – eu quase rosnei para ela.

Suas próximas palavras vieram em uma corrente. – Só o que eu sei é que você não estava em nenhum lugar perto de mim… O Tyler também não o viu, então não venha me dizer que bati a cabeça com força… Aquela van ia atropelar nós dois… E não aconteceu, e suas mãos pareceram amassar a lateral dela… E você deixou um amassado no outro carro e não está nada machucado… E a van devia ter esmagado minhas pernas, mas você a levantou… – De repente, ela trincou os dentes e seus olhos estavam brilhando com lágrimas não derramadas.

Eu a encarei, minha expressão de escárnio, embora o que sentisse mesmo era medo; ela realmente tinha visto tudo.

- Acha que eu levantei a van? – eu perguntei sarcasticamente.

Ela respondeu com um aceno rápido.

Minha voz ficou ainda mais irônica. – Sabe que ninguém vai acreditar nisso.

Ela lutou para controlar a raiva. Quando me respondeu, ela falou cada palavra devagar. – Não vou contar a ninguém.

Ela estava dizendo a verdade – Eu podia ver isso nos olhos dela. Mesmo furiosos e traídos, ela iria guardar meu segredo.

Por quê?

O choque disso arruinou a minha expressão cuidadosamente projetada durante meio segundo, e logo me recompus.

“E por que isso importa?” Eu perguntei, trabalhando para manter minha voz severa.

“Importa pra mim,” ela disse intensa. “Eu não gosto de mentir – então é melhor que tenha um bom motivo para fazer isso.”

Ela me pediu para confiar nela. Exatamente como eu queria que ela confiasse em mim. Mas esse lado da linha eu não podia atravessar.

A minha voz ficou calosa. “Você não pode só me agradecer e esquecer isso?”

“Obrigada,” ela disse, e logo ela fumigou silenciosamente, esperando.

“Você não vai esquecer isso, vai?”

“Não.”

“Nesse caso…” Eu não podia dizer ela a verdade se eu quisesse… E eu não podia querer.

Eu deixaria ela fazer sua própria história sobre quem eu era, por que nada podia ser pior que a verdade – Eu estava vivendo um pesadelo, diretamente das páginas de uma história de terror.

“Espero que você goste da decepção.”

Fizemos carranca um para o outro.

Foi ímpar quão amável sua raiva foi. Como um furioso gatinho, macio e inofensivo, e também ignorante quanto a sua própria invulnerabilidade.

Ela ficou rosada e apertou seus dentes de novo. “Por que você se deu o trabalho então?”

Sua pergunta não era a que eu estava esperando ou preparado para responder.

Eu perdi as regras do jogo, as quais eu estava firmado. Eu senti a máscara escorregar da minha face, e eu disse a ela – nesse único momento – a verdade.

“Eu não sei.”

Eu memorizei seu rosto uma última vez – ainda tinha alguns traços de raiva, o sangue ainda não tinha parado de deixar suas bochechas rosadas – e então eu me virei e andei para longe dela.

Cap.4-Visões

4 – Visões

Eu voltei para a escola. Esta era a coisa certa a se fazer, a maneira mais discreta para se comportar.

No final do dia, quase todos os outros alunos tinham voltado para as classes também. Só Tyler e Bella e alguns outros – que provavelmente estavam usando o acidente como uma chance para matar aula – continuaram ausentes.

Não deveria ser tão difícil fazer a coisa certa. Mas, durante toda a tarde, estava batendo os dentes contra o desejo que me deixara querendo matar aula também – ir procurar a garota de novo.

Como um perseguidor. Um perseguidor obsessivo. Um vampiro perseguidor obsessivo.

A escola hoje estava – de algum modo, impossivelmente ainda mais tediosa do que tinha sido há uma semana. Como coma. Era como se as cores tivessem sido drenadas dos tijolos, das árvores, do céu, dos rostos ao meu redor.

Havia outra coisa certa que eu deveria estar fazendo… e não estava. Claro, também era uma coisa errada. Tudo dependia da perspectiva que você olhava.

Da perspectiva de um Cullen – não só um vampiro, mas um Cullen, alguém que pertencia a uma família, uma coisa tão rara em nosso mundo – a coisa certa a se fazer seria algo assim:

- Estou surpreso de vê-lo na classe, Edward. Eu ouvi que você esteve envolvido naquele acidente horrível hoje de manhã.

- Sim, eu estava, Sr. Banner, mas eu fui o sortudo. – Um sorriso amigável. – Eu não me machuquei nem um pouco… gostaria de poder dizer o mesmo por Tyler e Bella.

- Como eles estão?

- Eu acho que Tyler está bem… só alguns arranhões superficiais do vidro do pára-brisas. Embora não tenho certeza quando a Bella. – Uma careta preocupada. – Ela talvez tenha uma concussão. Eu escutei que ela estava bastante incoerente por um tempo – até vendo coisas. Eu sei que os médicos estavam preocupados…


Era assim que deveria ter sido. Era assim que eu devia à minha família.

- Estou surpreso em vê-lo na classe, Edward. Eu ouvi que você esteve envolvido naquele acidente horrível hoje de manhã.

- Não me machuquei. – Sem sorriso.

O Sr. Banner mudou seu peso de um pé para o outro, desconfortável.

- Tem alguma idéia de como Tyler Crowley e Bella Swan estão? Ouvi que tiveram alguns machucados…

Dei de ombros. – Não sei dizer.

O Sr. Banner limpou a garganta. – Ah, certo… – ele disse, meu olhar frio deixando sua voz um pouco tensa.

Ele andou rapidamente de volta para frente da sala e começou a matéria.

Era a coisa errada a se fazer. A não ser que você olhasse de uma perspectiva mais obscura.

Só que parecia tão… tão deselegante caluniar a garota pelas costas, especialmente quando ela estava provando ser mais confiável do que eu podia ter sonhado. Ela não havia dito nada para me trair, embora tivesse uma boa razão para o fazer. Eu iria traí-la quando ela não tinha feito nada a não ser guardar meu segredo?

Eu tive uma conversa quase idêntica com a Sra. Goff – só que em espanhol ao invés de inglês – e Emmett me olhou por um longo tempo.

Eu espero que você tenha uma boa explicação para o que aconteceu hoje. Rose está em pé de guerra.

Eu revirei meus olhos sem olhar para ele.

Na verdade eu tinha criado uma explicação que parecia perfeita. Supondo que eu não tivesse feito nada para parar a van antes que ela esmagasse a menina… eu tremi com esse pensamento. Mas se ela tivesse sido atingida, se ela tivesse sido ferida e tivesse sangrado, o fluído vermelho derramado, desperdiçado no asfalto, o cheiro de sangue fresco pulsando pelo ar…

Eu tremi de novo, mas não só em terror. Parte de mim tremeu de desejo. Não, eu não teria sido capaz de assistí-la sangrando sem expor a nós todos em um jeito muito mais escandaloso e chocante.

Parecia a desculpa perfeita… mas eu não a usaria. Era vergonhosa demais.

E de qualquer maneira, eu não tinha pensando nela até bem depois do fato ter ocorrido.

Tome cuidado com Jasper, Emmett continuou, alheio aos meus pensamentos. Ele não está tão nervoso… mas ele está mais decidido.

Eu vi o que ele quis dizer, e por um momento a sala girou ao meu redor. Meu ódio era tão devorador que uma névoa vermelha encobriu minha visão. Eu pensei que fosse me fogar nela.

CREDO, EDWARD! SE CONTROLE! Emmett gritou para mim em sua cabeça. Sua mão desceu para o meu ombro, segurando-me em meu lugar antes que eu pudesse pular e ficar em pé. Ele raramente usava sua força completa – raramente havia necessidade, porque ele era tão mais forte que qualquer outro vampiro que qualquer um de nós já tivesse encontrado – mas ele a usou agora. Ele agarrou meu braço, ao invés de me empurrar para baixo. Se ele estivesse me empurrando, a cadeira embaixo de mim teria desmoronado.

CALMA! Ele ordenou.

Eu tentei me acalmar, mas era difícil. A fúria queimava em minha cabeça.

Jasper não vai fazer nada até todos nós conversarmos. Eu só achei que você devia saber a direção que ele está tomando.

Eu me concentrei em relaxar, e senti a mão de Emmett afrouxar.

Tente não chamar mais atenção. Você já está com problemas o suficiente do jeito que está.

Eu respirei fundo e Emmett me soltou.

Eu procurei através da sala por rotina, mas nosso confronto tinha sido tão curto e silencioso que só algumas pessoas sentadas atrás de Emmett tinham notado. Nenhuma delas sabia o que pensar disso, e elas esqueceram. Os Cullens eram aberrações – todos já sabiam disso.

Droga, garoto, você está horrível, Emmett acrescentou, seu tom simpático.

- Dane-se. – eu resmunguei entre dentes, e escutei sua risada baixa.

Emmett não guardava rancor, e eu provavelmente deveria estar mais agradecido por sua natureza de fácil convívio. Mas eu podia ver que as intenções de Jasper faziam sentido para Emmett, que ele estava considerando qual seria o melhor caminho a se tomar.

O ódio ferveu, mau sob controle. Sim, Emmett era mais forte do que eu, mas ele ainda não havia me derrubado em uma luta. Ele dizia que era porque eu trapaceava, mas escutar pensamentos era tão parte de mim quanto a força era dele. Nós lutávamos de igual para igual.

Uma luta? Era essa a direção que tudo tomava? Eu iria lutar contra a minha família por uma humana que eu mal conhecia?

Eu pensei sobre isso por um minuto, pensei na sensação do frágil corpo da garota nos meus braços contra Jasper, Rose e Emmett – sobrenaturalmente fortes e rápidos, máquinas de matar por natureza…

Sim, eu iria lutar por ela. Contra a minha família. Eu tremi.

Mas não era justo deixá-la desprotegida quando fui eu quem a colocou em perigo.

Eu não conseguiria ganhar sozinho, entretanto, não contra os três deles, e me perguntei quais seriam meus aliados.

Carlisle, certamente. Ele não iria lutar contra ninguém, mas ele seria contra os planos de Rose e Jasper. Talvez isso fosse tudo que eu precisasse. Eu iria ver…

Esme era incerta. Ela não ficaria contra mim também, e ela iria detestar discordar de Carlisle, mas ela iria ser a favor de qualquer plano que mantivesse sua família unida. Sua prioridade não seria o certo, e sim eu. Se Carlisle era a alma da família, Esme era o coração. Ele nos deu um líder que merecia ser acompanhado, ela transformou isso em um ato de amor. Todos nós nos amávamos – mesmo por baixo da fúria que eu sentia por Jasper e Rose no momento, mesmo planejando lutar contra eles para salvar a garota, eu sabia que eu os amava.

Alice… não fazia idéia. Provavelmente dependeria do que ela visse chegando. Ela ficaria do lado do vencedor, imaginei.

Então eu teria que fazer isso sem ajuda. Sozinho eu não era páreo para eles, mas eu não ia deixar a menina ser machucada por minha culpa. Isso talvez exigisse uma ação evasiva…

Minha raiva diminuiu um pouco com o súbito humor negro. Eu podia imaginar como a menina reagiria se eu a raptasse. É claro, eu raramente adivinhava suas reações – mas que outra reação ela poderia ter além de terror?

Não tinha certeza como cuidar disso – raptá-la. Não seria capaz de ficar perto dela por muito tempo. Talvez eu só a devolvesse à mãe. Mesmo isso seria repleto de perigo. Para ela.

E também para mim, eu percebi de repente. Se eu a matasse por acidente… eu não tinha certeza de quanta dor isso iria me causar, mas eu sabia que seria intensa e em várias formas.

O tempo passou rapidamente enquanto eu meditava sobre todas as complicações à minha frente: a discussão me esperando em casa, o conflito com a minha família, a distância que eu seria forçado a percorrer depois de tudo…

Bom, eu não podia mais reclamar que a vida fora da escola era monótona. A garota tinha mudado isso.

Emmett e eu andamos silenciosamente para o carro quando o sinal tocou. Ele estava preocupado comigo, e preocupado com Rosalie. Ele sabia que lado teria que escolher em uma disputa, e isso o incomodava.

Os outros estavam esperando por nós no carro, também silenciosos. Éramos um grupo bem quieto. Só eu conseguia escutar a gritaria.

Idiota! Lunático! Imbecil! Estúpido! Egoísta, tolo irresponsável! Rosalie mantinha uma linha constante de insultos a plenos pulmões. Ficou difícil ouvir os outros, mas eu a ignorei o melhor que eu pude.

Emmett estava certo sobre Jasper. Ele estava seguro de seu plano.

Alice estava transtornada, preocupada com Jasper, passando por imagens do futuro. Não importa por qual direção Jasper chegasse à garota, Alice sempre me via lá, o impedindo. Interessante… nem Rosalie ou Emmett estavam com ele nessas visões. Então Jasper planejava trabalhar sozinho. Isso deixaria as coisas eqilibradas.

Jasper era o melhor lutador, certamente o mais experiente entre nós: minha única vantagem consistia no fato de que eu podia escutar seus movimentos antes que ele os fizesse.

Eu nunca havia lutado mais que de brincadeira com Emmett ou Jasper – só passatempo. Senti-me enjoado com o pensamento de realmente tentar machucar Jasper…

Não, não isso. Só impedi-lo. Isso era tudo.

Eu me concentrei em Alice, memorizando as diferentes formas de ataque de Jasper.

Quando eu fiz isso, as visões dela mudaram, se afastando mais e mais da casa dos Swan. Eu o estava parando antes…

Pare com isso Edward! Não pode acontecer desse jeito. Eu não vou deixar.

Eu não a respondi, só continuei olhando.

Ela começou a olhar mais para frente, para o campo nebuloso e incerto de possibilidades distantes. Tudo era sombrio e vago.

No caminho inteiro para casa, a atmosfera silenciosa não cedeu. Eu estacionei na grande garagem perto da casa; a Mercedes de Carlisle estava ali, perto do Jeep enorme de Emmett, o M3 de Rosalie e meu Vanquish. Fiquei contente que Carlisle já estava em casa – o silêncio terminaria de forma explosiva, e eu queria que ele estivesse perto quando isso acontecesse.

Fomos direto para a sala de jantar.

Essa sala nunca era, é claro, usada para o propósito para o qual fora construída. Mas era mobiliada com uma longa mesa oval de mogno cercada por cadeiras – éramos cautelosos em ter os acessórios para fingir. Carlisle gostava de usá-la como uma sala de conferência. Em um grupo com tantas personalidades fortes e distintas, às vezes era necessário discutir as coisas sentados, de um jeito calmo.

Eu tinha um pressentimento de que sentar não iria ajudar em muita coisa hoje.

Carlisle sentou em seu lugar habitual na ponta leste da mesa. Esme estava ao lado dele – eles deram as mãos em cima da mesa.

Os olhos de Esme estavam em mim, as profundezas douradas deles cheias de preocupação.

Fique. Foi seu único pensamento.

Eu queria poder sorrir para a mulher que era verdadeiramente uma mãe para mim, mas eu não tinha como assegurá-la agora.

Eu sentei do outro lado de Carlsile. Esme se virou ao redor dele para colocar sua mão livre no meu ombro. Ela não tinha idéia do que estava para começar, só estava se preocupando comigo.

Carlisle tinha uma noção melhor do que estava chegando. Seus lábios estavam apertados com força e sua testa estava enrugada. A expressão era muito velha para seu rosto jovem.

Quando todos os outros estavam sentados, eu pude ver as linhas serem desenhadas.

Rosalie sentou-se diretamente à frente de Carlisle, na outra ponta da grande mesa. Ela me encarou, nunca desviando o olhar.

Emmett sentou ao lado dela, seu rosto e sua mente amargos.

Jasper hesitou, então foi ficar em pé contra a parede atrás de Rosalie. Ele estava decidido, não importava o resultado dessa discussão. Meus dentes bateram.

Alice foi a última chegar, e seus olhos estavam concentrados em alguma coisa muito longe – o futuro, ainda muito incerto para que ela fizesse uso dele. Sem parecer pensar ela sentou perto de Esme. Ela esfregou a testa como se tivesse dor de cabeça. Jasper se contorceu preocupado e considerou se juntar a ela, mas manteve sua posição.

Eu respirei fundo. Eu tinha começado isso – devia falar primeiro.

- Me perdoem. – Eu disse, olhando primeiro para Rosalie, depois para Jasper e então Emmett. – Eu não tive a intenção de colocar nenhum de vocês em risco. Foi impensado,e eu assumo total responsabilidade pelo meu ato precipitado.

Rosalie me encarou malignamente. – O que vocês quer dizer, ‘assume total responsabilidade’? Você vai consertar?

- Não do jeito que você quer dizer. – Eu disse, tentando manter minha voz calma e equilibrada. – Estou disposto a ir embora agora, se isso deixa as coisas melhores. – Se eu acreditar que a garota ficará segura, se eu acreditar que nenhum de vocês irá tocá-la, eu emendei na minha cabeça.

- Não. – Esme murmurou. – Não, Edward.

Eu dei um tapinha em sua mão. – São só alguns anos.

- Esme está certa. – Emmett disse. – Você não pode ir a lugar algum agora. Isso seria o oposto de útil. Nós temos que saber o que as pessoas estão pensando agora mais do que nunca.

- Alice pegará qualquer coisa grave. – eu discordei.

Carlisle balançou a cabeça. – Eu acho que Emmett tem razão, Edward. Vai ser mais fácil a garota falar se você desaparecer. Ou todos nós vamos, ou ninguém vai.

- Ela não vai dizer nada. – eu insisti rapidamente. Rose estava processando uma explosão, e eu queria esse fato claro antes.

- Você não conhece a mente dela. – Carlisle me lembrou.

- Disso eu tenho certeza. Alice, me dê cobertura.

Alice me olhou cansativamente. – Não consigo ver o que vai acontecer se nós ignorarmos isso. Ela olhou de relance para Rose e Jasper.

Não, ela não conseguia ver esse futuro – não quando Rosalie e Jasper estavam tão decididos em não ignorar o acidente.

A palma de Rosalie bateu na mesa com um barulho alto. – Não podemos permitir que a humana tenha chance de dizer nada. Carlisle, você deve ver isso. Mesmo se decidirmos todos desaparecer, não é seguro deixar histórias para trás. Nós vivemos de um jeito tão diferente do resto do nosso tipo – você sabe que existem aqueles que iriam adorar uma desculpa para fazer acusações. Temos que ter mais cuidado que qualquer um!

-Já deixamos rumores para trás antes. – eu a lembrei.

- Só rumores e suspeitas, Edward. Não testemunhas oculares e evidências!

- Evidência! – eu zombei.

Mas Jasper estava concordando, seus olhos duros.

-Rose… – Carlisle começou.

- Me deixe terminar, Carlisle. Não precisa ser nada que chame atenção. A menina bateu a cabeça hoje. Então talvez aconteça de o machucado ser mais sério do que parecia. – Rosalie deu de ombros. – Todo mortal vai dormir com a chance de nunca mais acordar. Os outros iriam esperar que nós cuidássemos nós mesmos disso. Tecnicamente, isso seria trabalho de Edward, mas isto está obviamente além dele. Você sabe que sou capaz de me controlar. Eu não iria deixar nenhuma evidência para trás.

- Sim, Rosalie, todos nós sabemos a assassina eficiente que você é. – eu rosnei.

Ela sibilou para mim, furiosa.

- Edward, por favor. – Carlisle disse. Então se virou para Rosalie. – Rosalie, eu fui a favor em Rochester porque eu senti que você devia ter justiça. Os homens que você matou haviam lhe prejudicado monstruosamente. Essa não é a mesma situação. A garota Swan é uma inocente.

- Não é nada pessoal, Carlisle. – Rosalie disse pelos dentes. – É para proteger a todos nós.

Houve um breve silêncio enquanto Carlisle pensava em sua resposta. Quando ele concordou, os olhos de Rosalie brilharam. Ela devia saber melhor. Mesmo se eu não fosse capaz de ler os pensamentos dele, eu podia ter previsto suas próximas palavras. Carlisle nunca cedia.

- Eu sei que sua intenção é boa, Rosalie, mas… eu gostaria muito que nossa família fosse digna de ser protegida. Os ocasionais… acidentes ou lapsos de controle são uma parte lamentável de quem nós somos. – Era bem característico dele se incluir no plural, embora ele próprio nunca tivesse tido esse tipo de lapso. – Assassinar uma criança sem culpa a sangue frio é outra coisa completamente diferente. Eu acredito que o risco que ela apresenta, quer ela fale suas suspeitas ou não, não é nada muito grave. Se abrirmos exceções para nos proteger, estaremos arriscando algo muito mais importante. Nós arriscamos perder a essência de quem somos.

Controlei minha expressão com cuidado. Não faria bem algum sorrir agora. Ou aplaudir, como eu gostaria.

Rosalie olhou com uma cara feia. – É só ser responsável.

- É ser insensível. – Carlisle corrigiu gentilmente. – Toda vida é preciosa.

Rosalie suspirou pesadamente e seu lábio inferior fez um bico. Emmett deu um tapinha em seu ombro. – Vai ficar tudo bem, Rosalie. – ele encorajou com uma voz baixa.

- A pergunta – Carlisle continuou. – é se nós devemos nos mudar ou não?

- Não. – Rosalie lamentou. – Acabamos de nos fixar. Não quero começar o segundo ano de colegial outra vez!

- Você vai poder manter sua idade atual, claro. – disse Carlisle.

- E ter que mudar ainda mais cedo? – ela revidou.

Carlisle deu de ombros.

- Eu gosto daqui! Tem pouco sol, podemos ser quase normais.

- Bom, não precisamos decidir agora. Podemos esperar e ver se isso se torna uma necessidade. Edward confia no silêncio da menina Swan.

Rosalie bufou.

Mas eu não estava mais preocupado com Rosalie. Podia ver que ela concordaria com a decisão de Carlisle, não importa o quanto estivesse brava comigo. A conversa deles tinha se voltado para detalhes sem importância.

Jasper continuou determinado.

Eu entendi o motivo. Antes dele e Alice se conhecerem, ele vivia em uma zona de combate, um cenário de guerra impiedoso. Ele sabia as conseqüências de desprezar as regras – já havia visto os medonhos resultados com os próprios olhos.

Dizia muita coisa o fato de ele não ter tentando acalmar Rosalie com seus talentos extras, ou que agora não tentava incentivá-la. Ele se mantinha neutro na discussão – acima dela.

- Jasper. – eu disse.

Ele encontrou meus olhos, seu rosto inexpressível.

- Ela não vai pagar pelo meu erro. Não vou permitir.

- Ela tira proveito, então? Ela deveria ter morrido hoje, Edward. Eu só consertaria as coisas.

Eu falei de novo, enfatizando cada palavra. – Não vou permitir.

Ele ergueu as sobrancelhas. Não estava esperando isso – ele não imaginava que eu fosse impedi-lo.

Ele balançou a cabeça uma vez. – Não vou deixar Alice viver em perigo, mesmo que seja leve. Você não sente por ninguém o que eu sinto por ela, Edward, e você não viveu o que eu vivi, tendo visto minhas memórias ou não. Você não entende.

- Não estou discutindo isso, Jasper. Mas estou avisando que não vou deixar você machucar Isabella Swan.

Nos encaramos – sem raiva, e sim avaliando o oponente. Eu senti que ele verificava o ambiente ao meu redor, testando minha determinação.

- Jazz… -Alice disse, nos interrompendo.

Ele sustentou seu olhar mais um pouco, e então olhou para ela. – Não se incomode em dizer que você pode cuidar de si mesma, Alice. Eu já sei disso. Eu ainda tenho que…

- Não é isso que eu vou falar. – Alice interrompeu. – Eu ia pedir um favor para você.

Eu vi o que estava na mente dela e minha boca se abriu com uma arfada audível. Eu olhei para ela, chocado, só vagamente consciente de que todos tirando Alice e Jasper me observavam cuidadosamente.

- Eu sei que você me ama. Obrigada. Mas eu gostaria muito que você não tentasse matar Bella. Primeiro de tudo, Edward está falando sério e não quero vocês dois brigando. Segundo, ela é minha amiga. Pelo menos vai ser.

Estava nítido na mente dela: Alice, sorrindo, com seus braços gelados envolta dos braços quentes e frágeis da garota. E Bella estava sorrindo também, seu braço na cintura de Alice.

A visão era sólida como uma pedra; só o tempo era incerto.

- Mas, Alice… – Jasper ofegou. Não conseguia virar minha cabeça para olhar sua expressão. Não conseguia me desviar da imagem na cabeça de Alice para olhar para ele.

- Eu vou amá-la algum dia, Jazz. Vou ficar muito chateada com você se não deixá-la viver.

Eu ainda estava preso nos pensamentos de Alice. Eu vi o futuro brilhar enquanto a resolução de Jasper diminuía com o pedido inesperado dela.

- Ah… – Ela suspirou – a decisão dele tinha criado um novo futuro. – Vê? Bella não vai dizer nada. Não há com o que se preocupar.

O modo como ela disse o nome da menina… como se elas já fossem confidentes…

- Alice – eu engasguei. – O que… isso?

- Eu disse que uma mudança estava vindo. Eu não sei, Edward. – Mas ela apertou o queixo e eu podia ver que havia mais. Ela estava tentando não pensar nisso; de repente estava se concentrando muito em Jasper, embora ele estivesse muito espantado para fazer algum progresso com sua decisão.

Ela fazia isso às vezes, quando queria esconder algo de mim.

- O que é, Alice? O que está escondendo?

Ouvi Emmett resmungar. Ele sempre ficava frustrado quando Alice e eu tínhamos esses tipos de conversa.

Ela sacudiu a cabeça, tentando me manter fora.

-É sobre a garota? – eu ordenei. – É sobre Bella?

Ela bateu os dentes se concentrando, mas quando eu falei o nome de Bella, ela escorregou. Só durou meio segundo, mas foi o suficiente.

- NÃO! – eu gritei. Eu escutei a cadeira bater no chão e percebi que estava em pé.

- Edward! – Carlisle ficou em pé também, seu braço no meu ombro. Mal estava ciente dele.

- Está consolidando. – Alice sussurrou. – Cada minuto que passa você está mais decidido. Só existem duas saídas para ela agora. É uma coisa ou outra, Edward.

Eu podia ver o que ela via… mas não queria aceitar.

- Não. – eu disse de novo; não tinha volume na minha negação. Minhas pernas ficaram bambas e precisei me apoiar na mesa.

- Alguém por favor quer deixar o resto de nós saber do mistério? – Emmett reclamou.

- Eu tenho que ir embora. – eu sussurrei para Alice, ignorando-o.

- Edward, nós já falamos sobre isso. – Emmett disse alto. – Essa é a melhor maneira de fazer a garota falar. Além do mais, se você for embora, nós não vamos ter certeza se ela vai falar alguma coisa ou não. Você tem que ficar e lidar com isso.

- Não vejo você indo a lugar algum, Edward. – Alice me disse. – Não sei mais se você consegue ir embora. – Pense, ela acrescentou silenciosamente. Pense sobre partir.

Eu vi o que ela quis dizer. Sim, a idéia de nunca mais ver a menina era… dolorosa. Mas também era uma necessidade. Não conseguia aprovar nenhum dos futuros que aparentemente eu a tinha condenado.

Não tenho certeza absoluta quanto ao Jasper, Edward. Alice continuou. Se você partir, ele pensa que ela é um perigo para nós.

- Eu não vou ouvir isso. – eu a contradisse, ainda meio consciente da nossa platéia. Jasper estava hesitante. Ele não faria algo que magoasse Alice.

Não neste momento. Você arriscaria a vida dela, a deixaria desprotegida?

-Por que está fazendo isso comigo? – eu gemi. Minha cabeça caiu em minhas mãos.

Eu não era o protetor de Bella. Não podia ser isso. O futuro dividido de Alice não era prova suficiente disso?

Eu a amo também. Ou eu vou. Não é a mesma coisa, mas eu a quero por perto para isso.

- A ama também? – eu sussurrei, incrédulo.

Ela suspirou. Você é tão cego, Edward. Não consegue ver a direção que está tomando? Não consegue ver onde já está? É mais inevitável do que o sol nascendo no leste. Veja o que eu vejo…

Eu balancei minha cabeça, horrorizado. – Não. – eu tentei bloquear as visões que ela me revelada. – Não tenho que seguir esse caminho. Eu vou embora. Eu vou mudar o futuro.

- Você pode tentar… – ela disse, a voz cética.

- Ah, por favor! - Emmett aumentou o tom de voz.

- Preste atenção. – Rosalie sibilou para ele. – Alice o vê se apaixonando por uma humana! Isso é típico de Edward! – Ela tirou sarro.

Eu mal a ouvi.

- O quê? – Emmett disse, surpreso. Então sua risada de rugido ecoou pelo cômodo. – É isso o que tem acontecido? – Ele riu de novo. – Parada dura, Edward.

Eu senti a mão dele no meu ombro, e a afastei distraído. Não conseguia prestar atenção nele.

- Se apaixonando por uma humana? – Esme repetiu em uma voz impressionada. – Pela garota que ele salvou hoje? Se apaixonar por ela?

- O que você vê, Alice? Exatamente. – Jasper pediu.

Ela se virou para ele; Eu continuei a olhar seu rosto, entorpecido.

- Tudo depende se ele é forte o bastante ou não. Ou ele irá matá-la com as próprias mãos – ela girou para encontrar meu olhar outra vez – o que iria realmente me irritar, Edward, sem mencionar o que iria fazer com você – ela olhou Jasper novamente – ou ela vai ser uma de nós algum dia.

Alguém engasgou; não vi quem foi.

- Isso não vai acontecer! – eu estava gritando de novo. – Nenhum dos dois!

Alice não pareceu ter me escutado. – Tudo depende. – ela repetiu. – Talvez ele seja só forte o suficiente para não matá-la – mas vai ser por pouco. Vai requerer uma quantidade incrível de controle. – ela meditou. – Mais até o que Carlisle tem. Ele talvez seja forte só o suficiente… A única coisa para qual ele não é forte o bastante é ficar longe dela. Essa é uma causa perdida.

Não conseguia achar minha voz. Ninguém parecia ser capaz de achar sua. A sala ficou imóvel.

Eu encarei Alice, e todos me encararam. Podia ver minha própria expressão de terror de cinco pontos de vista diferentes.

Depois de um longo momento, Carlisle suspirou.

- Bom, isso… complica as coisas.

- Eu que o diga. – Emmett concordou. A voz dele era mais uma risada. Era com Emmett mesmo, fazer piada na destruição da minha vida.

- Mas acho que o plano continua o mesmo. – Carlisle disse, ponderado. – Vamos ficar e observar. Obviamente, ninguém irá… machucar a menina.

Eu enrijeci.

- Não. – Jasper disse calmamente. – Se Alice só vê duas saídas…

- Não! – minha voz não era um grito ou um rosnado ou choro de desespero, mas uma combinação dos três. – Não!

Eu tinha que ir embora, ficar longe do som dos pensamentos deles – da aversão egoísta de Rosalie, do humor de Emmett, da paciência infinita de Carlisle…

Pior: a confiança de Alice. A confiança de Jasper na confiança dela.

Pior de tudo: a… alegria de Esme.

Fui para fora da sala. Esme tocou meu braço quando eu passei, mas eu não reconheci o gesto.

Estava correndo antes que estivesse fora da casa. Passei pelo rio em um pulo, e corri para a floresta. A chuva tinha voltado, caindo tão pesada que eu me ensopei em poucos segundos. Gostei da água espessa – criou uma parede entre eu e o resto do mundo. Me rodeou, me deixou isolado.

Corri na direção leste, para longe das montanhas sem desviar da linha até que pude ver as luzes de Seattle do outro lado da baía. Parei antes que chegasse à fronteira da civilização.

Cercado pela chuva, sozinho, eu finalmente me obriguei a ver o que tinha feito – como tinha mutilado o futuro.

Primeiro, a visão de Alice e da garota com seus braços ao redor uma da outra – a confiança e amizade eram tão óbvias que gritavam da imagem. Os olhos castanhos expressivos de Bella não estavam confusos nessa visão, e sim cheios de segredos – nesse momento, pareciam segredos felizes. Ela não se afastou do braço frio de Alice.

O que isso significava? O quanto ela sabia? Nessa visão congelada do futuro, o que ela pensava de mim?

Então a outra imagem, tão parecida, só que colorida com horror. Alice e Bella, seus braços ainda envolta uma da outra em sua amizade confiável. Mas agora não havia diferença entre esses braços – os dois eram braços, macios e de mármore, duros como aço. Os olhos atentos de Bella não eram mais castanhos chocolate. Suas íris eram de um escarlate vívido, chocante. Os segredos neles eram insondáveis – aceitação ou angústia? Era impossível de dizer. O rosto dela era frio e imortal.

Eu tremi. Eu não conseguia evitar as perguntas similares, mas diferentes: O que isso significava – como isso aconteceu? E o que ela pensava de mim agora?

Eu podia responder essa última. Se eu a forçasse a fazer parte dessa meia vida vazia por causa da minha fraqueza e egoísmo, com certeza ela me odiaria.

Mas havia mais uma imagem horrorosa – pior do que qualquer outra que já tive.

Meus próprios olhos, escarlate intensos com o sangue humano, os olhos de um monstro. O corpo quebrado de Bella em meus braços, branco pálido, vazio, sem vida. Era tão concreta, tão clara.

Não podia suportar ver isso. Não conseguia suportar. Tentei tirar da minha mente, tentei ver alguma outra coisa, qualquer coisa. Tentei ver a expressão no rosto com vida dela que tinha obstruído minha visão no último capítulo de minha existência. Tudo em vão.

A visão negra de Alice encheu minha cabeça, e eu me contorci internamente com a agonia que ela causou. Enquanto isso, o monstro em mim estava cheio de felicidade, eufórico com as chances de seu sucesso. Deixou-me enjoado.

Isso não podia ser permitido. Tinha que ter um jeito de transformar o futuro. Eu não deixaria as visões de Alice me dizer o que fazer. Eu escolheria um caminho diferente. Sempre existia uma escolha.

Tinha que existir.

Cap.5-Convites

5. Convites


Colegial. Não era mais o purgatório, agora era o inferno puro. Tormento e fogo… sim, eu tinha os dois.

Eu estava fazendo a coisa certa agora. Todos os pingos nos i’s e os traços nos t’s. Ninguém podia reclamar que eu estava evitando minhas responsabilidades agora.

Para deixar Esme feliz e proteger os outros, eu fiquei em Forks. Retornei para meu horário antigo. Cacei mais que o resto deles. Todo dia, eu ia para a escola e fingia ser humano. Todo dia, eu escutava cuidadosamente qualquer coisa nova sobre os Cullens – não tinha nada novo. A garota não tinha falado uma palavra de suas suspeitas. Ela só repetiu a história de novo e de novo – que eu estava ao lado dela e a tinha tirado do caminho – até que os ouvintes ficaram entediados e pararam de pedir mais detalhes. Não havia perigo. Minha ação precipitada não tinha machucado ninguém.

Ninguém além de mim.

Estava determinado a mudar o futuro. Não era a coisa mais fácil de se fazer, mas não tinha outra escolha com a qual eu podia viver.

Eu tinha pensado que aquele primeiro dia tinha sido o mais difícil. No final dele, eu tinha certeza que esse era o caso. Mas estava errado.

Estava amargurado, sabendo que tinha machucado a menina. Tirei conforto do fato de que a dor dela não era nada mais do que uma picada – só uma pequena ferroada de rejeição – comparada com a minha. Bella era humana, e ela sabia que eu era algo mais, algo errado, algo assustador. Ela provavelmente se sentiria mais aliviada do que magoada quando eu virasse meu rosto para longe dela e fingisse que ela não existe.

- Oi, Edward,- ela me cumprimentou no meu primeiro dia de volta a classe de biologia. A voz dela estava agradável, amigável, 180 decibéis desde a ultima vez que eu falei com ela.

Por quê? O que a mudança queria dizer? Ela teria esquecido? Decidiu que ela imaginou todo o episodio? Ela poderia possivelmente ter me perdoado por não cumprir minha própria promessa?


As perguntas estavam queimando como a sede que me atacava toda vez que eu respirava.

Apenas por um instante eu olhei nos olhos dela. Só para ver se eu podia encontrar respostas lá…

Não. Eu não podia me permitir nem mesmo isso. Não se eu fosse mudar o futuro.

Eu movi meu queixo devagar na direção dela sem olhar para longe da frente da sala. Eu acenei com a cabeça uma vez, e então eu virei meu rosto para frente…

Ela não falou comigo de novo.

Aquela tarde, assim que a escola terminou, meu papel também terminou, eu fui até Seattle como eu tinha feito um dia antes. Parecia que eu poderia agüentar a dor apenas levemente melhor quando eu estava voando ao longo do chão, transformando tudo a minha volta em um borrão verde.

Essa corrida se tornou meu habito diário.

Eu a amava? Eu não acho que era isso. Não ainda. A visão de Alice do futuro que eu tinha preso comigo, embora, eu pudesse ver quão fácil seria me apaixonar por Bella. Isso seria exatamente como cair: Sem esforço. Não deixar de amá-la seria o oposto da queda – como ser puxado de um penhasco, eu apoiei meu rosto sobre a mão, a tarefa foi cansativa, como se eu já não tivesse força mortal.

Mais de um mês se passou, e cada dia era mais difícil. Isso não fazia sentido para mim – me manter perto dela, para que as coisas fossem mais fáceis. Devia significar isso quando Alice disse que eu não desejaria, e não conseguiria ficar longe da menina. Ela tinha visto a escalada da dor. Mas eu podia lidar com a dor.

Eu não iria destruir o futuro da Bella. Se eu fosse destinado ao amor dela, e então ela não fosse evitar, esse era o mínimo que eu podia fazer?

Evitar ela era o máximo que eu podia agüentar; entretanto. Eu podia fingir ignorá-la, e nunca estar em seu caminho. Eu podia fingir que ela não me interessava. Mas se essa era medida, eu apenas faria de conta, e não seria real.

Eu ainda flutuava a cada respiração dela, cada palavra que ela dizia.

Eu aglomerava meus tormentos em quatro categorias.

Os dois primeiros eram familiares. O seu aroma e o seu silêncio. Ou, ao invés – assumir a responsabilidade por mim mesmo ao que ela pertencia – a minha sede era minha curiosidade.

A sede era o meu primeiro tormento. Eu tornei um hábito, agora, simplesmente não respirar na aula de Biologia. Mas é claro, sempre há exceções – quando eu tinha de responder a uma pergunta ou algo do tipo, e eu teria necessidade de falar usando meu fôlego. Cada vez que eu saboreasse o ar em torno da garota, que era o mesmo desde o primeiro dia – fogo e violência brutal e a necessidade desesperada de me livrar. Era mesmo um pouco difícil de agarrar a razão ou retenção nesses momentos. E, como no primeiro dia, o monstro estava prestes a rugir, tão perto da superfície…

A curiosidade era um dos meus constantes tormentos. Uma coisa que nunca saiu da minha cabeça: O que ela está pensando agora? Ao ouvi-la calmamente suspirar. Quando ela passava um dos dedos sobre o cabelo. Quando ela jogava o livro com mais força do que o normal. Quando ela chegava na aula tarde. Quando ela batia seu pé, impaciente, sobre o chão. Cada movimento que eu pegava na minha visão periférica era um irritante mistério. Quando ela conversava com os outros alunos humanos, eu analisava todas as palavras e seu tom. Será que ela dizia o que estava pensando, ou ela pensava no que iria dizer? Se isso soava para mim como se ela estivesse tentando dizer o que a sua audiência esperava, e isso me fez lembrar da minha família e de nossa vida diária da ilusão – nos éramos melhores do que ela estava sendo. Ao menos eu estava errado sobre isso, apenas imaginando coisas. Por que ela iria ter um papel a desempenhar? Ela era um deles – uma jovem adolescente.

Mike Newton era o mais surpreendente dos meus tormentos. Quem teria sonhado que um tão comum e entediante mortal poderia ser tão irritante? Para ser justo, eu deveria ter de sentir gratidão pelo entediante garoto; mais do que os outros, ele fazia a garota falar. Eu aprendi muito sobre ela através dessas conversas – eu ainda montava a minha lista -, mas contrariamente, a assistência de Mike com este projeto só me deixava mais irritado.

Eu não queria que Mike fosse o único a descobrir segredos. Eu queria fazer isso.

Ele nunca percebeu as pequenas revelações que ela fazia, seus pequenos discúidos.

Ele não sabia nada sobre ela. Ele criou uma Bella em sua cabeça, que não existia – uma menina tão comum como ele era. Ele não tinha observado a generosidade e bravura que a distingüia dos outros humanos, ele não conhecia a anormal maturidade das suas falas. Ele não percebia que, quando ela falava de sua mãe, ele falava de sua mãe como se ela fosse uma criança e não o contrário – amorosa, indulgente, um pouco divertida, e ferozmente protetora.

Ele não percebia a paciência em sua voz quando ela fingia interesse no caminho das conversas, e não adivinhava o que havia atrás de sua paciente bondade.

Embora nas conversas com Mike, eu fosse capaz de adicionar a qualidade mais importante para a minha lista, e mais reveladora de todas elas, tão simples como rara. Bella era boa. Todas as outras coisas somadas com tudo – agradável, discreta, altruísta, amorosa e corajosa – ela era cada vez melhor através do tempo.

Não me tornavam mais gentil com o garoto, no entanto. A maneira como ele ficava possessivo quando via a Bella – como se ela fosse feita para ele – me provocou quase raiva com o seu rude fantasiar sobre ela. Ele estava se tornando mais confiante de si mesmo, também, quando o tempo passou, ele considerou isso ao vê-la preferi-lo aos seus rivais – Tyler Crowley, Erick Yorkie, e sempre, esporadicamente, eu mesmo. Ele se sentava rotineiramente ao seu lado na mesa, conversando com ela, encorajado por seus sorrisos. Apenas educados sorrisos, eu disse a mim mesmo. Eu freqüentemente me pegava imaginando, entretido, rebatendo ele contra a parede da sala… É muito provável que ele não fosse se ferir fatalmente…

Mike muitas das vezes não pensava em mim como um rival. Após o acidente, ele ficou preocupado que Bella e eu fossemos criar vínculos a partir da experiência partilhada, mas obviamente teve o resultado oposto. Naquela época, ele ainda tinha ficado irritado que eu e Bella tínhamos deixado o seu grupo de atenções. Mas agora eu o ignorei perfeitamente como os outros, e ele progrediu complacente.

O que ela estava pensando agora? Será que ela gostava de ser o centro das atenções?

E, finalmente o último dos meus tormentos, o mais doloroso: A indiferença de Bella. Como eu havia ignorado ela, ela me ignorou também. Ela nunca tentou falar comigo novamente. Com tudo que eu sabia, ela nunca pensou em mim novamente.

Isso poderia me levar a loucura- ou até mesmo mudar minha decisão para alterar o futuro – exceto que ela às vezes me encarava como ela havia feito antes. Eu não a via para mim, como se eu não pudesse me permitir olhar para ela, mas Alice sempre nos advertia quando ela estava prestes a me encarar; Os outros estavam sendo cuidadosos com o conhecimento problemático da garota.

Aliviava um pouco a dor quando ela me olhava de longe de vez em quando. É claro que ela poderia estar imaginando que tipo de louco que eu era.

“Bella vai encarar Edward em um minuto. Pareça normal.” Alice disse uma terça-feira de Março, e os outros tomaram cuidado para gesticular e se mexer como um humano; ficar totalmente parado era um hábito da nossa espécie.

Eu prestei atenção para quantas vezes ela olhava na minha direção. Me agradava, apesar de não dever agradar, que a freqüência não diminuía conforme o tempo passava. Eu não sabia o que aquilo significava, mas me fazia me sentir melhor.

Alice suspirou. “Eu gostaria…”

“Fique fora disso, Alice,” Eu disse por baixo do fôlego. “Não vai acontecer”

Ela fez um bico. Alice estava ansiosa para formar sua amizade iminente com Bella. De uma forma estranha ela sentia falta da garota que ela nem conhecia.

“Eu admito que você é melhor do que eu pensei. Você tem seu futuro todo determinado e sem sentido de novo. Espero que você esteja feliz” Ela pensou.

“Faz bastante sentido pra mim.”

Ela fez um som impaciente de forma delicada.

Eu tentei a ignorar, estava muito impaciente para conversas. Eu não estava de bom-humor- mais tenso do que eu deixava qualquer um deles ver. Só Jasper sabia como eu estava, sentindo o stress ao meu redor com sua habilidade única de sentir e influenciar o humor das pessoas ao redor. Ele não entendia as razões por trás dos humores e – como seu estava constantemente em um humor ruim- ele ignorava.

Hoje seria um dia difícil. Mais difícil que o dia anterior, esse era o padrão.

Mike Newton, o garoto odiável com quem eu não podia me permitir virar rival, ia chamar Bella para um encontro.

O baile que as garotas escolhiam o par estava chegando, e ele esperava muito que Bella o chamasse. E que ela não havia feito nada que abalava a confiança dele. Agora ele estava desconfortavelmente preso – eu gostava do desconforto dele mais do que eu devia – porque Jessica Stanley tinha acabado de o chamar. Ele não queria dizer “sim”, esperando que Bella o escolhesse (e provar que ele era o vitorioso entre seus rivais), mas ele não queria dizer “não” e acabar perdendo o baile. Jessica, magoada pela sua hesitação e imaginando a razão por trás disso, estava tendo pensamentos raivosos contra Bella. Eu entendi o instinto melhor agora, mas só me fez mais frustrado quando eu não podia agir.

E pensar que tinha chegado a esse ponto! Eu estava totalmente fixado nos dramas da escola que um dia eu havia simplesmente ignorado.

Mike estava trabalhando na sua coragem conforme ele andava com Bella até a aula de biologia. Eu ouvi sua luta interna enquanto eu esperava eles chegarem. O garoto era fraco. Ele tinha esperado por essa festa de propósito, com medo de fazer seu afeto reconhecido antes dela ter mostrado uma preferência por ele. Ele não queria ficar vulnerável para uma possível rejeição, preferindo que ela desse aquele passo antes.

Covarde.

Ele sentou do nosso lado de novo, confortável com a familiaridade, e eu imaginei o som que seu corpo faria se batesse contra a parede oposta com força suficiente para quebrar a maioria dos seus ossos.

- Então – ele disse pra garota, seus olhos no chão. – Jessica me chamou para o baile de primavera.

- Isso é ótimo. – Bella respondeu imediatamente e com entusiasmo. Era difícil não sorrir conforme Mike se dava conta de seu tom. Ele estava esperando por consternação. – Você vai se divertir muito com a Jessica.

Ele refletiu sobre a resposta certa. – Bem… – ele hesitou, e quase desistiu. Então voltou ao trilho. – Eu falei pra ela que ira pensar sobre isso.

“Por que você faria isso?” ela perguntou. O tom dela era mais de desaprovação, mas ainda tinha uma pontada de alívio também.

O que aquilo significava? Uma fúria inesperada fez com que minhas mãos se curvassem nos meus punhos com força.

Mike não ouviu o alívio. O rosto dele vermelho – com a raiva que eu estava parecia um convite – e ele olhou para o chão de novo enquanto falava.

“Eu estava pensando….talvez você estivesse pensando em me chamar.”

Bella hesitou.

Naquele momento de hesitação, eu vi o futuro mais claramente do que Alice.

Ela talvez possa dizer sim para a pergunta implícita de Mike, talvez não, mas ainda assim, algum dia ela diria sim para alguém. Ela era adorável, intrigante e outros homens notavam isso. Se ela fosse se prender a alguém nesse grupo insalubre, ou esperasse para estar livre de Forks, o dia que ela diria sim chegaria.

Eu vi a vida dela como tinha visto no dia anterior – faculdade, carreira…amor, casamento. Eu vi ela de braços dados com seu pai, vestida de branco, seu rosto corado de felicidade conforme ela se movia com a marcha nupcial de Mendelssohn.


A dor era mais forte do que jamais tinha sido. Um humano teria que estar à beira da morte para sentir essa dor- um humano não sobreviveria a isso.

E não só a dor mas o ódio.

A raiva também doía de uma forma física. Mesmo que esse garoto insignificante não seja para quem Bella diga sim; Eu queria esmagar o crânio dele na minha mão, para deixar ele representar quem ela escolher.

Eu não entendia essa emoção – era uma mistura de dor e raiva e desejo e desespero. Eu nunca havia me sentido assim antes; não podia definir isso.

“Mike, acho que você devia dizer sim,” Bella disse de forma gentil.

As esperanças de Mike desapareceram. Em outras circunstâncias eu teria gostado mas eu estava preso no choque após a dor – e o remorso que a dor e a raiva tinham me dado.

Alice estava certa. Eu não era forte o suficiente.

Agora, Alice estaria vendo o futuro contorcido e revirando, ficando confuso de novo. Isso a agradaria?

“Você já chamou alguém?” Mike perguntou sóbrio. Ele deu uma olhada para mim, suspeitando pela primeira vez em um bom tempo. Eu notei que nunca tinha disfarçado meu interesse bem, minha cabeça estava inclinada na direção de Bella.

A raiva descontrolada nos pensamentos dele – raiva por qualquer um que ela preferisse – de repente deu um nome ao meu sentimento.

Eu estava com ciúmes.

“Não” Ela disse achando um pouco de graça. “Eu não vou mesmo.”

Por trás de todo o remorso e raiva, eu senti alívio nas palavras dela. De repente eu estava considerando os meus rivais.

“Por que não?” Mike perguntou de uma forma quase mal-educada. Me ofendia que ele falasse assim com ela. Eu me segurei.

“Eu vou para Seattle nesse sábado.” Ela respondeu.

A curiosidade não era mais tão viciante quanto antes – agora que eu estava mais concentrado em descobrir as respostas e tudo mais. Eu saberia os porquês e quando dessa revelação.

O tom de Mike continuou grosso. “Você não pode ir outro dia?”

“Desculpa, não.” Bella foi mais brusca agora. “Então você não deveria fazer Jess esperar mais – È falta de educação.”

A preocupação dela com os sentimentos de Jessica diminuiu as chamas do meu ciúme. Essa viagem para Seattle me parecia suspeita como uma desculpa para dizer não – ela recusou puramente por lealdade a amiga? Ela realmente queria poder dizer sim? Ou os dois palpites estavam errados? Ela estava interessada em outra pessoa?

“…, você tem razão.” Mike murmurou, com a moral tão baixa que eu quase senti pena dele. Quase.

Ele parou de olhar para ela, cortando minha visão do rosto dela na sua mente.

Eu não podia tolerar isso.

Eu virei para ler a expressão dela por mim mesmo, pela primeira vez em mais de um mês. Foi um alívio poder me autorizar a fazer isso, como respirar depois de muito tempo embaixo d’água era para humanos.

Os olhos delas estavam fechados e suas mãos de cada lado do seu rosto. Seus ombros curvados pra frente de forma defensiva. Ela balançava a cabeça suavemente, como se ela estivesse tentando parar de pensar em alguma coisa.

Frustrante. Fascinante.

A voz do Sr.Banner a tirou da sua reflexão e seus olhos abriram devagar. Ela olhou para mim imediatamente, talvez sentindo que eu a olhava. Ela me olhou nos olhos com a mesma expressão perplexa que tinha me perseguido.

Eu não senti remorso ou culpa ou raiva naquele segundo. Eu sabia que eles reapareceriam, logo mas por hora era até um pouco excitante. Como se eu tivesse ganhado e não perdido.

Ela não parou de me olhar mesmo eu encarando-a com uma intensidade imprópria, tentando sem sucesso ler seus pensamentos por seus olhos castanhos. Eles estavam cheios de perguntas ao invés de respostas.

Eu podia ver a reflexão dos meus próprios olhos, vi eles pretos com sede. Já haviam passado quase duas semanas desde a última vez que eu cacei; isso não era o modo mais seguro de sucumbir a minha vontade. Mas a escuridão não pareceu assustar ela. Ela não olhou em outra direção e uma leve cor vermelha começou a aparecer na sua face.

O que ela estava pensando agora?

Eu quase perguntei em voz alta, mas quase ao mesmo momento Sr.Banner chamou meu nome. Eu ouvi a resposta certa na sua mente e olhei rapidamente na sua direção.

Eu respirei rapidamente. “Ciclo de Krebs.”

A sede coçou minha garganta – fazendo meus músculos mais tensos e enchendo minha boca com veneno. – eu fechei os olhos, tentando me concentrar apesar do desejo pelo sangue dela que pulsava dentro de mim.

O monstro estava mais forte do que antes. O monstro estava reaparecendo. Ele se juntou a esse futuro que dava a ele uma chance de 50% que ele desejava de maneira cruel.

O terceiro futuro incerto eu havia tentando construir por força de vontade apenas tinha sido destruído – pelo ciúmes, acima de tudo. – e por isso o monstro estava cada vez mais perto de ter seu desejo.

O remorso e a culpa me queimaram assim como a sede e se eu tivesse como produzir lágrimas elas estariam se formando agora.

O que foi que eu fiz?

Sabendo que a batalha estava perdida, não parecia ter mais uma razão para resistir o que eu queria; eu virei para encarar Bella novamente.

Ela havia se escondido no próprio cabelo, mas eu podia ver que seu rosto estava totalmente vermelho agora.

O monstro gostou daquilo.

Ela não me olhou novamente, mas mexeu de forma nervosa em uma mecha de cabelo. Seus dedos delicados, seu pulso delicado – eles eram tão frágeis, parecendo que só minha respiração podia os romper.

Não, não, não. Eu não podia fazer isso. Ela era muito frágil, boa demais, preciosa demais para merecer esse destino. Eu não podia permitir que minha vida colidisse com a dela, destruir a vida dela.

Mas eu não podia ficar longe dela também. Alice estava certa sobre isso.

O monstro dentro de mim se manifestou, frustrado conforme eu pensava.

Minha breve hora passou muito rápido. O sinal tocou e ela começou a arrumar as coisas sem olhar para mim. Isso me decepcionou mas eu não podia esperar nada menos. O jeito que eu tinha a tratado desde o acidente foi inaceitável.

“Bella?” eu disse, sem conseguir me segurar. Minha força de vontade despedaçada.

Ela hesitou antes de olhar pra mim; quando ela virou sua expressão estava defensiva e desconfiada.

Eu relembrei a mim mesmo que ela tinha o direito de desconfiar de mim. Ela devia.

Ela esperou que eu continuasse mas eu só olhei para ela lendo sua expressão. Eu respirava forte em intervalos regulares, lutando contra minha sede.

“O que?” Ela finalmente perguntou. “Você está falando comigo novamente?” Havia um pingo de ressentimento em sua voz, como sua raiva aparecendo. Isso me fez sorrir.

Eu não tinha certeza de como responder a pergunta dela.Eu devia falar com ela de novo?

Não. Não se eu pudesse evitar. Eu tentaria.

“Não, na verdade não.” Eu falei para ela.

Ela fechou os olhos, o que me frustrou. Eu me permiti o máximo para tentar acessar os seus sentimentos. Ela respirou fundo sem abrir os olhos. Seu maxilar estava rígido.

Com olhos fechados, ela falou. Certamente não era o jeito normal de conversar. Porque ela fazia isso?

“Então o que você quer, Edward?”

O som do meu nome nos lábios dela fez algo estranho ao meu corpo. Se meu coração batesse, estaria acelerado.

Mas como responder para ela?

Com a verdade, eu decidi. Seria o mais sincero que eu podia ser com ela a partir de agora. Eu não queria merecer sua desconfiança, mesmo omitir a verdade era impossível.

“Me desculpe.” Eu falei. Era a melhor verdade que ela poderia saber. Infelizmente o único jeito seguro de me desculpar era de maneira trivial. “Eu estou sendo muito mal educado, eu sei. Mas é melhor assim, acredite.”

Seria melhor se eu pudesse continuar sendo mal educado. Será que eu conseguiria?

Os olhos dela abriram, sua expressão ainda cautelosa.

“Não sei o que você quer dizer.”

Eu tentei o máximo que podia por um aviso entrelinhas para ela. “… melhor para nós não sermos amigos.” Certamente ela podia sentir a verdade. Ela era esperta. “Confie em mim.”

Os olhos dela se estreitaram e eu lembrei que eu havia dito as palavras para ela antes – logo antes de quebrar a promessa. Eu me encolhi quando ela travou o queixo – ela claramente lembrava também.

“… uma pena você não ter descoberto isso antes.” Ela disse brava. “Você poderia ter evitado todo esse arrependimento.”

Eu a encarei em choque. O que ela sabia dos meus arrependimentos?

“Arrependimento? Arrependimento pelo que?” Eu exigi.

“Por não ter deixado aquela van idiota me esmagar!” ela respondeu bruscamente.


Eu congelei, entorpecido.

Como ela podia pensar isso? Salvar sua vida tinha sido a única coisa certa que eu fiz desde que a conheci. A única coisa de que não me envergonhava. A única coisa que me deixava feliz em existir. Estive lutando para mantê-la viva desde o primeiro momento em que senti seu cheiro. Como ela podia estar pensando isso de mim? Como se atrevia questionar meu único ato de bondade em toda essa bagunça?

- Acha que me arrependo de ter salvado você?

- Eu sei que se arrepende.

A avaliação dela das minhas intenções me deixou fervendo de raiva. – Você não sabe de nada.

Como sua mente funcionava de um jeito confuso e incompreensível! Ela não devia pensar do mesmo modo que os outros humanos. Essa devia ser a explicação por trás de seu silêncio mental. Ela era completamente diferente.

Ela virou o rosto, batendo os dentes. Suas bochechas estavam vermelhas, com raiva de novo. Ela juntou os livros em uma pilha, os colocou nos braços e marchou na direção da porta sem encontrar meu olhar.

Mesmo irritado como eu estava, era impossível não achar seu ódio divertido.

Ela andou desajeitada, sem olhar para onde ia, e seu pé bateu no batente da porta. Ela tropeçou, e todas as coisas caíram no chão. Ao invés de se curvar para pegá-las, ficou parada, rígida, sem ao menos olhar para baixo, como se não tivesse certeza de que os livros merecessem ser recuperados.

Consegui não dar risada.

Ninguém estava aqui para me ver; eu fui rapidamente para o seu lado e juntei os livros antes que ela olhasse para baixo.

Ela se inclinou, me viu, e parou. Entreguei os livros para ela, tomando cuidado para que minha pele gelada não tocasse a dela.

- Obrigada. – ela disse numa voz fria, severa.

Seu tom trouxe minha irritação à tona.

- Não há de quê. – respondi no mesmo tom frio.

Ela se endireitou e foi para sua próxima aula.

Eu fiquei olhando até que não pudesse mais ver sua figura nervosa.

A aula de espanhol passou em um borrão. A Sra. Goff não questionou minha distração – ela sabia que meu espanhol era superior ao dela, e me deu liberdade – me deixando livre para pensar.

Então, eu não podia ignorar a garota. Isso era óbvio. Mas isso significava que eu não tinha outra saída a não ser destruí-la? Este não podia ser o único futuro disponível. Tinha que ter alguma outra escolha, algum equilíbrio. Tentei pensar em um jeito…

Não prestei muita atenção em Emmett até que a aula terminou. Ele estava curioso – Emmett não era muito intuitivo sobre os sentimentos dos outros, mas ele podia ver uma óbvia mudança em mim. Perguntou-se o que teria acontecido para tirar o insistente olhar de ódio do meu rosto. Ele lutou para definir a mudança, e finalmente decidiu que eu parecia esperançoso.

Esperançoso? Era assim que eu parecia por fora?

Refleti com a idéia de esperança enquanto andávamos para o Volvo, me perguntando sobre o que exatamente eu devia ter esperança.

Mas não tive que refletir por muito tempo. Sensível aos pensamentos dos outros sobre a garota como eu era, o som do nome de Bella nas cabeças dos meus… dos meus rivais, tive que admitir, chamou minha atenção. Eric e Tyler, tendo escutado – com muita satisfação – do fracasso de Mike, estavam se preparando para agir.

Eric já estava pronto, encostado na picape dela, de modo que ela não conseguisse evitá-lo. A aula de Tyler estava atrasada por causa de um trabalho, e ele estava desesperado para pegá-la antes que ela escapasse.

Isso eu tinha que ver.

- Espere pelos outros aqui, está bem? – murmurei para Emmett.

Ele me olhou, suspeito, mas então deu de ombros e acenou.

O garoto ficou louco, ele pensou, divertido com meu pedido esquisito.


Eu vi a Bella saindo do ginásio, e esperei ela passar de um lugar onde ela não me veria. Quando ela se aproximou da emboscada de Eric, eu fui para mais perto, andando num ritmo que me faria passar no momento certo.

Eu observei o corpo dela ficar tenso quando viu o garoto a esperando. Ela parou por um momento, então relaxou e continuou andando.

- Oi, Eric. – eu a escutei falar num tom amigável.

Fiquei inesperadamente ansioso. E se esse menino magro e com problemas de pele fosse de algum modo atraente para ela?

Eric engoliu alto, seu pomo-de-adão tremendo. – Oi, Bella.

Ela parecia inconsciente do nervosismo dele.

- E aí? – ela perguntou, destrancando a picape sem olhar para a expressão assustada que ele tinha.

-É… só estava pensando… se você gostaria de ir ao baile de primavera comigo. – a voz dele tremeu.

- Pensei que as meninas é quem deviam convidar. – ela disse, parecendo frustrada.

- Bom, e é. – ele concordou infeliz.

Esse pobre menino não me irritou tanto quanto Mike Newton, mas eu não conseguia achar dentro de mim qualquer simpatia por sua angústia até que Bella lhe respondeu com uma voz gentil.

- Obrigada por me convidar, mas vou a Seattle nesse dia.

Ele já tinha ouvido isso; mesmo assim, ficou desapontado.

-Ah – ele murmurou. – Bom, quem sabe na próxima?

- Claro. – ela concordou. Então mordeu o lábio, como se tivesse se arrependido de dar uma brecha a ele. Gostei disso.

Eric se afastou da picape e foi embora, indo na direção errada para seu carro, querendo só escapar dali.

Passei por ela nesse momento, e escutei seu suspiro de alívio. Dei risada.

Ela se virou ao som, mas eu olhei para frente, tentando evitar que meus lábios se contorcessem em divertimento.

Tyler estava atrás de mim, quase correndo na pressa de falar com ela antes que ela pudesse ir para casa. Ele estava mais destemido e confiante que os outros dois; só tinha esperado tanto tempo para abordar Bella porque respeitava que Mike a tinha visto primeiro.

Queria que ele conseguisse falar com ela por dois motivos. Se – eu estava começando a suspeitar – toda essa atenção fosse irritante para Bella, eu queria aproveitar e assistir sua reação. Mas, se não – se o convite de Tyler fosse o que ela estava esperando – então eu queria saber disso também.

Medi Tyler Crowley como um rival, sabendo que isso era errado de se fazer. Ele parecia tediosamente comum e pouco notável para mim, mas o que eu sabia das preferências de Bella? Talvez ela gostasse de garotos comuns…

Estremeci com esse pensamento. Eu jamais conseguiria ser um garoto comum. Que tolice era me colocar como rival de seus afetos. Como ela poderia se importar com alguém que era, sob qualquer ângulo, um monstro?

Ela era boa demais para um monstro.

Eu devia deixá-la escapar, mas minha curiosidade indesculpável evitou que fizesse a coisa certa. De novo. Coloquei meu Volvo na pista estreita, bloqueando a saída dela.

Emmett e os outros estavam vindo, mas ele tinha descrito meu comportamento estranho para eles, então estavam andando lentamente, me observando, tentando entender o que eu estava fazendo.

Eu olhei a garota pelo retrovisor. Ela olhou meu carro com raiva, encontrando meu olhar, como se quisesse estar dirigindo um tanque do que uma picape Chevy enferrujada.

Tyler correu para o seu carro e entrou na fila atrás dela, agradecendo meu comportamento inexplicável. Ele acenou para ela, para chamar sua atenção, mas ela não notou. Ele esperou um momento, então saiu do carro, vagando para a janela do carona dela. Bateu no vidro.

Ela pulou, então olhou para ele confusa. Depois de um segundo, abriu as janelas manualmente, parecendo ter alguns problemas com elas.

- Desculpe, Tyler. – ela disse numa voz irritada. – Estou presa atrás do Cullen.

Ela falou meu sobrenome com uma voz dura – ainda estava brava comigo.

- Ah, eu sei – Tyler disse, não se importando com o humor dela. – Eu só queria perguntar uma coisa enquanto estamos atolados aqui.

O sorriso dele era convencido.

Fiquei aliviado com o jeito que ela empalideceu com a tentativa óbvia dele.

- Vai me convidar para o baile de primavera? – ele perguntou, nenhum pensamento de derrota em sua mente.

- Eu não estarei na cidade, Tyler. – ela lhe disse, a irritação ainda bem presente em sua voz.

-É, o Mike me contou.

- Então por quê… – ela começou a perguntar.

Ele deu de ombros. – Eu esperava que você só estivesse se livrando deles do jeito mais fácil.

Os olhos dela queimaram, então ficaram frios. – Desculpe, Tyler. – ela disse, sem parecer sentir nada. – Eu estarei mesmo fora da cidade.

Ele aceitou essa desculpa, sua autoconfiança intocada. – Tudo bem. Ainda temos o baile dos estudantes.

Ele se empertigou e foi para o seu carro.

Estava certo em ter esperado por isso.

A expressão horrorizada no rosto dela era impagável. Disse-me o que eu não devia estar tão desesperado para saber – que ela não sentia nada por nenhum desses garotos humanos que queriam convidá-la.

E também, a expressão dela era possivelmente a coisa mais engraçada que eu já tinha visto.

Minha família chegou então, confusa pelo fato de que eu estava, para variar, me tremendo com o riso em vez de fazendo uma careta assassina a qualquer coisa à vista.

O que é tão engraçado? Emmett quis saber.

Eu só balancei minha cabeça enquanto me revirei com uma nova onda de riso quando Bella acelerou seu motor nervosa. Ela parecia querer o tanque outra vez.

- Vamos embora! – Rosalie sibilou impaciente. – Pára de ser idiota. Se puder.

As palavras dela não me irritaram – estava muito distraído. Mas fiz o que ela pediu.

Ninguém falou comigo no caminho para casa. Continuei a rir uma vez ou outra, pensando no rosto de Bella.

Quando eu virei para a estrada – acelerando agora que não havia testemunhas – Alice arruinou meu humor.

- Então eu posso falar com a Bella agora? – ela perguntou inesperadamente, sem considerar as palavras primeiro, não me dando aviso.

- Não. – eu revidei.

- Isso não é justo. Por que estou esperando?

- Eu ainda não decidi nada, Alice.

- Que seja, Edward.

Na cabeça dela, os dois destinos de Bella estavam claros novamente.

- Qual o sentido em conhecê-la? – eu murmurei, de repente rabugento. – Se eu vou matá-la?

Alice hesitou por um segundo. – Você tem razão. – ela admitiu.

Virei a ultima curva a 150 km/h então parei a três centímetros da parede da garagem.

- Aproveite sua corrida. – Rosalie disse presunçosa quando eu me atirei para fora do carro.

Mas eu não fui correr hoje. Em vez disso, fui caçar.

Os outros iriam caçar amanhã, mas eu não podia estar com sede agora. Exagerei, bebendo mais do que o necessário, me fartando de novo – um pequeno grupo de cervos e um urso negro que tive a sorte de cruzar tão cedo no ano. Estava tão cheio que era desconfortável. Por que isso não podia ser o suficiente? Por que o cheiro dela tinha que ser tão mais forte que todas as outras coisas?

Eu tinha caçado para me preparar para o próximo dia, mas, quando eu não conseguia mais fazer isso e o sol ainda estava a horas de nascer, soube que o próximo dia não chegaria rápido o bastante.

A enorme tensão me varreu outra vez quando eu percebi que ia encontrar a garota.

Eu lutei comigo todo o caminho de volta a Forks, mas meu lado menos nobre ganhou a discussão, e eu segui adiante com meu plano indefensável. O monstro estava inquieto, mas bem alimentado. Eu sabia que manteria uma distância segura dela. Só queria saber como ela estava. Só queria ver seu rosto.

Passava da meia-noite e a casa de Bella estava escura e silenciosa. A picape dela estacionada no meio-fio e a radiopatrulha de seu pai na entrada de carros. Não havia pensamentos conscientes em lugar algum na vizinhança. Olhei a casa por um momento, da escuridão da floresta me a cercava do lado leste. A porta da frente provavelmente estava trancada – não que isso fosse um problema, exceto que eu não queria deixar a porta quebrada como evidência para trás. Decidi tentar a janela de cima primeiro. Não existiam muitas pessoas que se importavam em instalar uma fechadura ali.

Cruzei o jardim aberto e escalei a parede da casa em meio segundo. Pendurado por uma mão na calha que ficava em cima da janela, olhei pelo vidro, e minha respiração parou.

Era o quarto dela. Eu a conseguia ver, as cobertas no chão e os lençóis enrolados por suas pernas. Enquanto eu olhava, ela se virou inquieta e colocou um braço por cima da cabeça. Ela não dormia profundamente, pelo menos não à noite. Ela sentiu o perigo próximo?

Fiquei com nojo de mim mesmo quando a vi mexer de novo. O quanto eu era melhor que qualquer outro bisbilhoteiro? Eu não era melhor. Era muito, muito pior.

Relaxei as pontas dos meus dedos, para me deixar cair. Mas primeiro me permiti um longo olhar para o rosto dela.

Não estava tranqüilo. A pequena ruga estava entre suas sobrancelhas, os cantos de seus lábios para baixo. Seus lábios tremeram, e então se abriram.


- Está bem, mãe. – ela resmungou.

Bella falava dormindo.

A curiosidade me invadiu, mais forte que o nojo que tinha por mim mesmo. O encanto que aqueles pensamentos falados, desprotegidos e inconscientes, era incrivelmente tentador.

Eu tentei abrir a janela, e não estava fechada, embora tenha travado por ter ficado tanto tempo sem ser aberta. Eu a empurrei lentamente para o lado, encolhendo a cada pequeno gemido que a moldura de metal fazia. Teria que achar algum óleo para a próxima vez…

Próxima vez? Eu balancei a cabeça, com nojo de novo.

Passei silenciosamente pela janela meio aberta.

O quarto dela era pequeno – desorganizado, mas não sujo. Havia livros empilhados no chão perto da sua cama, suas lombadas viradas para o outro lado, e CDs espalhados perto de seu disc-man barato – o que estava por cima era só uma caixa vazia. Papéis cercavam um computador que parecia mais pertencer a um museu dedicado a tecnologias obsoletas. Sapatos estavam no chão de madeira.

Eu queria muito ler os títulos de seus livros e CDs, mas tinha prometido que iria manter a distância; em vez disso, fui sentar na velha cadeira de balanço no outro canto do quarto.

Alguma vez eu tinha realmente pensado que ela era comum? Pensei naquele primeiro dia, e meu nojo pelos garotos que ficaram tão rapidamente intrigados por ela. Mas quando eu me lembrei do rosto dela nos pensamentos deles, não conseguia entender por que não a tinha achado linda imediatamente. Parecia uma coisa óbvia.

Nesse momento – com seu cabelo escuro embaraçado e selvagem envolta de seu rosto pálido, usando uma camiseta puída cheia de buracos e uma calça surrada – ela me deixou sem fôlego. Ou teria, pensei ironicamente, se eu estivesse respirando.

Ela não falou. Talvez seu sonho tenha terminado.

Eu encarei seu rosto e tentei pensar em algum modo de deixar o futuro suportável.

Machucá-la não era suportável. Isso significava que minha única escolha era tentar ir embora novamente?

Os outros não podiam discutir comigo agora. Minha ausência não iria colocar ninguém em perigo. Não teria nenhuma suspeita, nada para levar os pensamentos de ninguém de volta ao acidente.

Eu vacilei como tinha feito esta tarde, e nada pareceu possível.

Não podia esperar ser rival dos meninos humanos, quer esses garotos específicos a atraíssem ou não. Eu era um monstro. Como ela podia me ver de qualquer outro jeito? Se ela soubesse a verdade sobre mim, iria assustá-la e repulsá-la. Como a vítima em um filme de terror, ela iria correr, gritando de horror.

Lembrei-me do primeiro dia dela na aula de biologia… e soube que essa seria exatamente a reação certa para ela ter.

Era besteira imaginar que se fosse eu quem tivesse a convidado para esse baile bobo, ela teria cancelado seus planos feitos em cima da hora e concordado em ir comigo.

Não era a mim que ela estava destinada a dizer sim. Era para alguma outra pessoa, humana e quente. E eu nem podia – algum dia, quando ela dissesse sim – me deixar caçá-lo e matá-lo, porque ela o merecia, quem quer que fosse que tivesse escolhido.

Eu devia a ela fazer a coisa certa agora; não podia mais fingir que estava só em perigo de amar essa garota.

E mesmo assim, não importava realmente se eu fosse embora, porque Bella jamais me veria do jeito que eu queria que ela visse. Ela nunca me veria como alguém que merecesse ser amado.

Nunca.

Um coração morto, gelado, podia ser despedaçado? Parecia que o meu podia.

- Edward. – Bella disse.

Eu congelei, encarando seus olhos fechados.

Ela tinha acordado, me visto aqui? Ela parecia adormecida, mas sua voz tinha sido tão clara…

Ela suspirou calmamente, então se moveu inquieta outra vez, rolando de lado – ainda dormindo e sonhando.

- Edward. – ela murmurou suavemente.

Ela estava sonhando comigo.

Um coração morto, gelado, podia bater de novo? Parecia que o meu podia.

- Fique. – ela suspirou. – Não vá. Por favor… não vá.

Ela estava sonhando comigo, e nem era um pesadelo. Ela queria que eu ficasse com ela, lá em seu sonho.

Eu lutei para achar palavras para nomear os sentimentos que me invadiram, mas não existiam palavras fortes o suficiente para descrevê-los. Por um longo momento, me afoguei neles.

Quando eu emergi, não era o mesmo homem que havia sido.

Minha vida era a meia-noite, sem mudanças, sem fim. Deveria, por necessidade, sempre ser a meia-noite para mim. Então como era possível que o sol estivesse nascendo agora, bem na metade da meia-noite?

No momento em que me tornei um vampiro, trocando minha alma e mortalidade por imortalidade na dor abrasadora da transformação, eu tinha realmente congelado. Meu corpo tinha se transformado em algo mais para pedra do que para carne, permanente e sem mudanças. Eu mesmo, também, tinha congelado como era – minha personalidade, meus gostos e desgostos, meus humores e meus desejos; todos fixados de um jeito.

Era a mesma coisa para o resto dele. Todos nós estávamos congelados. Pedras vivas.

Quando uma mudança chegava para um de nós, era uma coisa rara e inalterável. Tinha visto acontecer com Carlisle, e uma década depois, com Rosalie. O amor os tinha mudado de um jeito irremediável, um jeito que nunca mais mudava. Mais de oitenta anos haviam se passado desde que Carlisle achara Esme, e ele ainda a olhava com os olhos incrédulos de primeiro amor. Seria sempre assim para eles.

Seria sempre assim para mim também. Eu sempre amaria essa frágil garota humana, pelo resto da minha existência sem limites.

Olhei para seu rosto inconsciente, sentindo esse amor por ela se acomodar em cada célula do meu corpo de pedra.

Ela dormia com mais calma agora, um sorriso fraco em seus lábios.

Sem deixar de observá-la, comecei a planejar.

Eu a amava, então eu tentaria ser forte o suficiente para deixá-la. Eu sabia que não era forte assim agora. Teria que trabalhar nisso. Mas talvez eu fosse forte o suficiente para moldar o futuro de outro jeito.

Alice tinha visto só dois futuros para Bella, e agora eu entendia os dois.

Amá-la não evitaria que eu a matasse, se eu cometesse erros.

Mas eu não conseguia sentir o monstro agora, não conseguia achá-lo em nenhum lugar dentro de mim. Talvez o amor o tivesse silenciado para sempre. Se eu a matasse agora, não seria intencional, só um horrível acidente.

Eu teria que ser extraordinariamente cuidadoso. Jamais, jamais seria capaz de baixar a guarda. Teria que controlar cada respiração. Teria sempre que manter uma distância segura.

Não cometeria erros.

Eu finalmente entendi o segundo futuro. Tinha estado aterrorizado por essa visão – o que poderia acontecer que resultaria em Bella se tornar uma prisioneira nessa meia-vida imortal? Agora – devastado por desejar a garota – eu podia entender como eu, num egoísmo indesculpável, pediria a meu pai esse favor. Pediria a ele que tirasse a vida e a alma dela para que eu pudesse ficar com ela para sempre.

Ela merecia coisa melhor.

Mas eu vi mais um futuro, uma linha estreita pela qual eu talvez pudesse caminhar, se pudesse manter meu equilíbrio.

Conseguiria fazer? Ficar com ela e deixá-la humana?

Deliberadamente, inspirei fundo e depois outra vez, deixando que seu cheiro passasse por mim como fogo. O quarto estava cheio de seu perfume; a fragrância dela saía de cada superfície. Minha cabeça girou, mas lutei contra a tontura. Teria que acostumar com isso, se eu fosse tentar ter qualquer tipo de relacionamento com ela. Respirei novamente, deixando o ar me queimar.

A observei dormindo até que o sol nascesse atrás das nuvens no leste, planejando e respirando.


Fui para casa quando os outros tinham ido embora para a escola. Troquei de roupa rapidamente, evitando os olhos cheios de perguntas de Esme. Ela viu a luz febril em meu rosto, e sentiu preocupação e alívio. Minha melancolia sem fim a magoava, e ela estava feliz que parecia ter acabado.

Eu corri para a escola, chegando poucos segundos depois que meus irmãos. Eles não viraram, embora Alice deva ter desconfiado que eu estava parado aqui nas grossas árvores que cercavam o asfalto. Eu esperei até que ninguém estivesse olhando, e então andei casualmente por entre as árvores até o estacionamento cheio de carros.

Eu ouvi a picape de Bella rugindo na esquina, e parei atrás de um Suburban onde podia observá-la sem ser visto.

Ela dirigiu até o estacionamento, olhando meu Volvo por um longo momento antes de parar em uma das vagas mais distantes, uma careta em seu rosto.

Era estranho lembrar que ela provavelmente ainda estava brava comigo, e por um bom motivo.

Eu queria rir para mim mesmo – ou me chutar. Todo o meu esquema e planejamento eram totalmente inúteis se ela não se importasse comigo, não eram? O sonho dela pode ter sido sobre alguma outra coisa aleatória. Eu era mesmo um tolo arrogante.

Bom, era muito melhor para ela se não se importasse comigo. Isso não me impediria de persegui-la, mas eu a avisaria de minha perseguição. Devia isso a ela.

Andei silenciosamente, pensando qual seria a melhor forma de me aproximar dela.

Ela deixou fácil. A chave da picape escorregou por seus dedos quando ela saiu, e caiu em uma poça funda.

Ela se inclinou, mas eu cheguei antes, a pegando antes que ela tivesse que colocar os dedos na água fria.

Encostei-me na picape quando ela me encarou e então se endireitou.

- Como é que você fez isso? – ela perguntou.

Sim, ainda estava brava.

Oferecia a chave para ela. – Fiz o quê?

Ela esticou a mão, e eu a deixei cair em sua palma. Respirei fundo, absorvendo seu cheiro.

- Aparecer do nada desse jeito. – ela esclareceu.

- Bella, não é culpa minha se você é excepcionalmente distraída. – As palavras eram sarcásticas, quase uma piada. Tinha alguma coisa que ela não visse?

Ela ouviu como a minha voz disse o nome dela com carinho?

Ela me encarou, não gostando muito do meu humor. Os batimentos dela aceleraram – de raiva? De medo? Depois de um momento, ela olhou para baixo.

- Por que o engarrafamento de ontem? – ela perguntou sem encontrar meus olhos. – Pensei que você devia fingir que eu não existo e não me matar de irritação.

Ainda estava bastante brava. Ia tomar algum esforço para deixar as coisas certas com ela. E me lembrei da minha resolução de ser honesto com ela…

- Aquilo foi pelo Tyler e não por mim. Tive que dar uma chance a ele. – E então eu ri. Não podia evitar, pensando na expressão dela de ontem.

- Você… – ela engasgou, então parou, parecendo estar furiosa demais para terminar. Ali estava – a mesma expressão. Abafei outra risada. Ela já estava nervosa o suficiente.

- E não estou fingindo que você não existe. – terminei. Estava certo em manter as coisas casuais, em provocá-la. Ela não entenderia se eu a deixasse ver como me sentia de verdade. Iria assustá-la. Tinha que manter meus sentimentos sob controle, manter as coisas leves…

- Então está tentando mesmo me matar de irritação? Já que a van do Tyler não fez o serviço?

Um rápido lampejo de raiva passou por mim. Como ela podia honestamente acreditar nisso?

Era irracional da minha parte ficar tão ofendido – ela não sabia da transformação que tinha acontecido à noite passada. Mas a raiva era a mesma.

- Bella, você é completamente absurda. – eu revidei.

O rosto dela corou, e ela virou as costas para mim. Começou a ir embora.

Remorso. Não havia sentido em minha raiva.

- Espere. – eu pedi.

Ela não parou, então eu a segui.

- Desculpe, foi grosseria minha. Não estou dizendo que não é verdade. – era absurdo imaginar que eu a queria machucada em qualquer jeito. – mas de qualquer forma, foi uma grosseria dizer aquilo.

- Por que não me deixa em paz?

Acredite, eu quis dizer. Eu tentei.

Ah, outra coisa, estou miseravelmente apaixonado por você.

Mantenha a coisa leve.

- Quero perguntar uma coisa, mas você está me evitando. – Um outro curso de ação tinha me ocorrido e eu dei risada.

- Você tem distúrbio de personalidade múltipla? – ela perguntou.

Parecia que sim. Meu humor instável, tantas emoções novas passando por mim.

- Lá vem você de novo. – eu assinalei.

Ela suspirou. – Tudo bem, então. O que quer me perguntar?

- Eu estava me perguntando se, no sábado que vem… – observei o choque passar por seus olhos e sufoquei outra risada. – Sabe, no dia do baile de primavera…

Ela finalmente me interrompeu, voltando seus olhos para mim. – Está tentando ser engraçadinho?

Sim. – Quer, por favor, me deixar terminar?

Ela esperou em silêncio, os dentes mordendo o lábio macio inferior.

Essa visão me distraiu por um momento. Reações estranhas, desconhecidas agitaram fundo no meu interior humano. Tentei me livrar delas para que pudesse fazer meu papel.

- Eu a ouvi dizer que vai a Seattle nesse dia e estava pensando se você queria uma carona. – ofereci. Percebi que, melhor que perguntar a ela sobre seus planos, eu poderia partilhá-los.

Ela me olhou inexpressivamente. – Como é?

- Quer uma carona para Seattle? – Sozinho no carro com ela – minha garganta queimou com o pensamento. Respirei fundo. Se acostume.

- Com quem? – ela perguntou, seus olhos arregalados e confusos de novo.

- Comigo, é claro. – eu disse lentamente.

- Por quê?

Era realmente um choque que eu queria a companhia dela? Ela deve ter chegado a pior conclusão possível com meu comportamento passado.

- Bom, eu pretendia ir a Seattle nas próximas semanas e, para ser sincero, não tenho certeza se sua picape vai agüentar. – Era mais seguro provocá-la do que me permitir ser sério.

- Minha picape funciona muito bem, obrigada por sua preocupação. – ela disse na mesma voz surpresa. E começou a andar outra vez. Continuei a seguindo.

Ela não havia dito não, então pressionei essa vantagem.

Ela diria não? O que eu faria se ela dissesse?

- Mas sua picape pode chegar lá com um tanque de gasolina?

- Não vejo como isso pode ser da sua conta. – ela reclamou.

Ainda não era um não. E o coração dela estava batendo mais rápido de novo, a respiração vindo mais rápida.

- O desperdício de recursos não-renováveis é da conta de todos.

“Honestamente, Edward, eu não consigo te acompanhar. Eu pensei que você não queria ser meu amigo.”

Uma forte emoção me atravessou quando ela disse meu nome.

Como manter isso suave e também ser honesto ao mesmo tempo? Bem, era mais importante ser honesto. Especialmente nesta questão.

“Eu disse que seria melhor se não fossemos amigos, não que eu não queria ser.”

“Oh, obrigada, isso esclarece tudo,” ela disse sarcasticamente.

Ela pausou, sob o teto da cafeteria, e encontrou meu olhar novamente. As batidas de seu coração estavam vacilantes. Ela estava com medo?

Eu escolhi minhas palavras cuidadosamente. Não, eu não poderia deixá-la, mas talvez ela fosse esperta o suficiente para me deixar, antes que fosse muito tarde.

“Seria mais… prudente pra você não ser minha amiga.” Fitando a profundeza de chocolate derretido dos seus olhos, eu perdi minha segurança na luz. “Mas eu estou cansado de tentar ficar longe de você, Bella.” As palavras queimaram com muito fervor.

Sua respiração parou e, quando voltou a respirar, aquilo me preocupou. Quanto eu a tinha assustado? Bem, eu descobriria isso.

“Você vai a Seattle comigo?” eu perguntei a queima roupa.

Ela acenou, seu coração batendo mais alto.

Sim. Ela tinha dito sim pra mim.

E depois minha consciência me sufocou. O que isso custaria a ela?

“Você realmente devia ficar longe de mim,” eu a alertei. Ela me ouviria? Ela escaparia do futuro no qual eu a estava lançando? Eu não poderia fazer nada para salvá-la de mim?

Mantenha-se suave, eu me adverti. “Te vejo na aula.”

Eu tive que me concentrar para me impedir de correr enquanto eu fugia.